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Três anos de mundo livre

Nosso colunista faz um histórico de sua passagem pela TRIP

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Quando recebi o Giuliano Cedroni, então diretor de redação da TRIP, na Penitenciária do Estado, não fazia a menor idéia do que viria a seguir. Minha vida, na época, era um correr de ferrolhos e olhares ameaçadores vindos de rostos patibulares. Ele trazia uma proposta de Paulo Lima, editor da revista. Paulo acabara de ler meu primeiro livro, Memórias de um Sobrevi-vente, e teve a idéia de me chamar para ser colunista da TRIP.


Havia um cineasta, amigo dele, Hen-rique Goldman, que vivia em Londres. Sua proposta era que Goldman escrevesse um texto lá de fora, no centro dos acontecimentos mundiais, e eu escrevesse outro do mun-do cru dos cadeados, lá de dentro da prisão. É obvio que me senti honrado. Meu pri-meiro texto foi em homenagem às mulheres. Parece que a coluna foi bem aceita, tanto que prossegui. Este mês, ela completa três anos. Jamais imaginei que fosse ser tão bom assim.


Fui transferido da Penitenciária do Estado para outra recém-inaugurada, próxima a Ribeirão Preto. E a TRIP me seguiu. Jamais me deixou em falta. Antes, quem fazia a intermediação entre eu e a revista era a Jadi, produtora editorial. Uma graça de garota a quem devotei profunda amizade. Nessa época, comecei a me empenhar para solidificar meu anseio de me tornar escritor. A coluna na revista era um grande incentivo. Recebi muitos e-mails. As pessoas pareciam gostar do que eu escrevia. Escrever, para mim, significava possuir sentimentos tão for-tes que somente descrevendo-os, evocando-os, poderia entendê-los. Era um jeito de conhecer emoções poderosas que vinham de dentro do meu ser e que eu não podia expressar no ambiente duro em que vivia. Vivia de coração estrangulado, louco para inundar o mundo da mais comovente ternura que me sentisse capaz.


 


Dedicação


Assim, o tempo foi passando. Algumas pessoas saíram da revista, outras entraram, e eu sempre na luta para manter minha coluna no nível mais alto possível. No lugar da Jadi, surgiu a Lúcia. Gostei dela instantaneamente. Sua dedicação a meu bem-estar e ao material que eu necessitava para desenvolver meu trabalho era extrema. Todo mês, ela me mandava as melhores revistas das bancas, canetas, papel, envelope, selos, livros. Sua amizade preenchia de sol todas as minhas sombras. Tornou-se, sem dúvidas, uma grande amiga.


Até que, de repente, conquistei minha liberdade. Renata, essa repórter de sorriso puro e olhar rasgado, trouxe-me da estação rodoviária do Tietê até minha casa atual, em Barra do Piraí. Conversamos mais de cinco horas sem parar. Suas perguntas buscavam muito mais que preencher as lacunas da re-portagem à qual fora encarregada. Era uma recepção, um carinho especial com que a revista me recebia.


Viveu comigo minhas primeiras emoções de felicidade, o reencontro com minha companheira após 30 anos distantes. Entrou em minha casa, conheceu cada recanto estranho de meu coração. Quando fui à Bienal do Livro, saindo de casa para viajar pela primeira vez, foi a TRIP que me arrumou a estada em São Paulo num hotel cinco estrelas. De repente, eu estava lá, no meio da redação. A princípio acanhado, olhando e respondendo. Mas a recepção calorosa foi me soltando aos poucos. Fui conhecendo pessoas que gostavam de me ver por ali. Algumas até se emocionavam com minha presença. Paravam de trabalhar para vir me conhecer pessoalmente e me parabenizavam pela minha liberdade, como se fosse uma vitória de todos por ali.


Passei a tarde toda por lá, sentindo-me parte, conversando com todo o mundo e sendo mimado por todos. Senti que estava sendo querido pelo que escrevi naqueles anos imensos. Havia uma admiração, uma aceitação sem restrições, uma comoção que faz parte das melhores recordações de minha vida. Sempre que posso, estou por lá. Paulo Lima tornou-se um amigo muito prezado. Alguém que se esforça em me apoiar. Amo aquela gente. Sinto-me um privilegiado por fazer parte de uma família tão querida.

*Luiz A. Mendes, 50, há três anos escreve para a TRIP. Mendes cumpriu a pena máxima prevista pela justiça brasileira, 30 anos, por assalto e homicídio, e hoje vive em Barra do Piraí (RJ), ao lado de sua companheira, Oneida Borges. Seu e-mail é: l.mendesjr@ig.com.br

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