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Trabalho

 

Assim como leitura não significa mais ler livros, trabalho também não significa mais aquele do escritório, da fábrica, com horários e obrigatoriedades. Leitura é a visão que temos de tudo o que nos cerca. Trabalho é o fazer, a aplicação de forças e faculdades coordenadas em um determinado sentido. Aprendi a valorizar trabalho na prisão. Tem outro sentido, a ver com conquista de espaços e segurar a cabeça nos piores momentos. Sempre soube que enquanto me mantivesse em movimento, tudo estaria sob controle. Então, cheguei a inventar trabalho onde trabalho não havia. Lutei insanamente para fazer frente à cultura de estagnação e alienação que se vive nas prisões brasileiras.  

O segredo era me adaptar à minha situação e transformam a vida em trabalho e fazer a vida prosseguir. Marcuse afirmava que: “O trabalho não dignifica o homem, antes danifica.” Posso concordar com o sábio no que trabalho nos estupidifica. Mas alguém tem que apertar parafusos, bater a prensa, soldar pecinhas, tirar cavacos e tiriricas. Pelo menos até quando a automação não chega. Caso contrário, como as engrenagens maiores funcionariam?

Aqui fora percebo, trabalho continua ser uma das funções mais importantes para a vida humana. De todos os medos, o maior é o desemprego. Claro, todos temem a violência. Mas o desemprego é violência das mais brutais. Gonzaguinha dizia que: “…vida é trabalho/ e sem o seu trabalho/ o homem não tem honra/ sem a sua honra se morre/ se mata/ não dá para ser feliz/ não dá pra ser feliz…” É nesse sentido que aprendi a encarar trabalho; como vida. A recíproca confirma a verdade; vida também é trabalho.

Cientistas sociais afirmam que o homem diminuirá seu tempo de trabalho. Com a automação, a robótica e a computação, a jornada de trabalho diminuirá. Então o homem terá tempo para aprendizados, lazer, reflexão e para si mesmo. Difícil crer que saberemos o que fazer com esse tempo. É só ver o que faz a maioria dos aposentados para perceber. Aqueles que se “livram” do trabalho, perdem até a motivação de viver. Claro, é muito legal não ter horários e não fazer nada, mas ter documento não garante identidade; o trabalho identifica.

Uma das coisas que mais me agredia na prisão era a falta do que fazer. Sou fazedor, alguém que necessita produzir. Trabalhei durante todos os meus mais de 30 anos de prisão. Na maioria das vezes, sem ganhar nada, além da identidade e a possibilidade de continuar fazendo. Na prisão, trabalhar é privilégio. São poucos postos de trabalho e, obvio, vão para os que estiverem visíveis. 

Amigos me aconselham a encontrar trabalho fixo. Como escritor, mesmo tendo cinco livros publicados e mais dois na fila para editar, a coluna na Trip, esse blog, consultorias, júri de concursos literários, palestras, oficina de leitura e escrita, e outras atividades, passo apertado. Consideram que tenho talento e para não matar o escritor, devo encontrar outro meio de vida. Escrever não garante o sustento do meu povo. Devo escrever no tempo que me sobrar. Mas isso não me basta. É insuficiente para a volúpia com que desempenho meus textos.

Escrever é o dom da minha vida. Escrever é o único momento em que estou inteiro; a angústia cede e uma alegria, uma euforia me toma. Sinto-me vivendo na ponta da vida, nem sexo é tão bom. Escrever nas horas vagas não será suficiente. O que fazer? Li em uma parede grafitada: “Não tente fazer o que só os fortes conseguem: vencer.” Não há alternativa, darei um jeito, farei alguma coisa, acho que só me resta vencer.

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Luiz Mendes

09/02/2015.

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