Por Alê Youssef*
O início do segundo governo Lula foi marcado por um longo e desgastante processo de montagem de seu ministério. Ao contrário da maioria dos casos de troca de ministros – que costumam ser rápidas e bastante objetivas, evitando desgastes, especulações e variações do cenário político e econômico –, o presidente da República arrastou a discussão ao longo dos dois meses finais de seu primeiro mandato e nos primeiros meses do ano, totalizando quase cinco meses de discussões. O pano de fundo de todo o processo foi o amplo debate sobre a composição de uma base parlamentar sólida, que livrasse o segundo mandato dos fantasmas da complicadíssima relação entre governo e Congresso que marcaram o primeiro mandato. Cada cargo foi calculado com precisão e para cada um deles o número de cadeiras no Congresso Nacional. A reforma ministerial teve seu fim quando, num acordo histórico, o presidente uniu em torno de si o maior e mais dividido dos partidos do Brasil: o PMDB.
É interessante notar toda a complexidade que existe na negociação para a montagem de um ministério com as maiores raposas políticas do Brasil. Sabemos que a política é a arte de se relacionar e de representar as pessoas e, para montar uma grande equação com todos os personagens que compõem a política brasileira, é preciso muito tato e muita capacidade de relacionamento. Outro aspecto notável dessa reforma é como todo esse processo influencia na relação do presidente com seu eleitorado. Obviamente que toda essa longa negociação – que culminou com a consolidação de uma base governista ampla – só aconteceu pois nunca na história do Brasil tivemos um presidente tão popular. Todas as pesquisas de opinião apontam para incríveis porcentagens de aprovação do governo Lula e de avaliação do desempenho pessoal do presidente. A popularidade, portanto, absorveu qualquer impacto negativo da negociação de meses e da explícita troca de cargos por apoio no Congresso Nacional.
Articulando a relação
Os dois aspectos usados para avaliar essa reforma ministerial podem ser encaixados em menor escala a todas as empreitadas pessoais que fazemos na vida: montar uma empresa, articular uma chapa pra concorrer ao centro acadêmico, ser síndico do prédio, criar uma ONG, montar qualquer associação de representação profissional etc. Sempre teremos o desafio do relacionamento interno, negociando a composição, articulando apoio, buscando investimentos e tantas outras coisas. Mas, por outro lado, sempre teremos que saber como as pessoas que representamos ou almejamos como público-alvo, sejam eleitores ou clientes, vão reagir às nossas ações. A arte de fazer política, seja como presidente da República, diretor de uma editora ou como gerente da seção de cosméticos de uma loja, implica sempre termos atenção na montagem e no relacionamento de nossa equipe e na opinião de quem está nos observando. Uma dupla relação que se complementa. O descuido com qualquer uma delas pode representar o fracasso de seu projeto ou a queda nas pesquisas.
*Alê Youssef, 32, foi coordenador de juventude da cidade de São Paulo (2001-2004). É fundador do site www.overmundo.com.br e sócio do Studio SP e do Núcleo de Idéias Movimento
