Fotos João Paulo Cuenca
Uma platéia bastante inconveniente bem que tentou atravessar as harmonias e o som melodioso dos Kings of Convenience. Tentou; sem sucesso. Eirik e Erlend, os monarcas noruegueses das sutilezas, estavam eufóricos por se apresentarem no Rio de Janeiro, cidade que embalou as batidas contidas de João Gilberto e seus bossa-novistas. ‘Quando ouvi o disco de João Gilberto ao vivo no Carnegie Hall percebi que o silêncio é o novo barulho’, contou Eirik à Trip antes de desembarcar no país. Quiet Is the New Loud (silêncio é o novo barulho, em português) é o nome do primeiro disco da dupla, lançado lá fora em 2001. Barulho foi também o que se ouviu de parte do público que foi ao Tim Lab para ver Vanessa da Mata e Morcheeba. Escalação equivocada, é certo. Num palco pequeno, intimista, como um pedacinho qualquer da areia de Ipanema (no domingo, os Kings prometeram que às 16 h da última terça tocariam defronte ao Caesar Park) os dois domariam os rugidos de maneira hipnótica. Dois banquinhos, dois violões (um piano também), vozes afinadíssimas e muita calma pra pensar.
Thiago Lotufo, subeditor da Trip
Do Bronx
Escalar o veterano trio de Nova Jersey para abrir a única noite de hip-hop do Tim Festival foi ingenuidade da organização, para dizer o mínimo. Sorte de quem chegou cedo ao palco principal na noite de sábado e azar dos artistas que tiveram de se apresentar depois deles. O DJ Pasemaster Mase e os MCs Trugoy e Posdnuos invadiram o Rio de Janeiro com o espírito dos bailes do bairro nova-iorquino do Bronx. Muito mais do que um show foi uma verdadeira festa, com os três demonstrando um domínio de palco e de público incrível. No repertório não faltaram clássicos como ‘A Roller Skating Jam Named’, ‘Me, Myself and I’, ‘Ego Trip’ e ‘Potholes in my Lawn’. O final, ao som de ‘Rock Co. Kane Flow’, foi impagável, com os três fazendo a dança do robô e imitando estátua (congelados no palco por mais de um minuto) toda vez que a música parava. Quarenta minutos de apresentação que deixaram todos os presentes ansiando por mais. Um equívoco da produção do festival que deu mais destaque para os iniciantes M.I.A. e Dizee Rascal do que aos veteranos do De La. Uma pena, de onde eu venho se respeita mais os mais velhos.
Filipe Luna, repórter da Trip
O bonde da M.I.A. saiu um pouco dos trilhos. Faltou pressão para subir a ladeira, mas nada que comprometesse a languidez cingalesa da MC. Tá bom. Poderia ter mais punch, mais presença, o tal pancadão. Só que o MAM não era o morro nem o Tim festival de funk carioca. Rebolaram fácil, fácil no ragga-electro-funk da gringa. Ela teve de pedir ajuda para a Deize Tigrona e uma backing vocal (além do namorado Diplo), mas, vá lá, encarar o palco principal depois das rimas do De La Soul não é moleza, não.
Thiago Lotufo, subeditor da Trip
A única coisa boa de o De La Soul ter sido escalado para abrir o palco principal na noite de sábado é que deu para correr para o palco Lab e assistir ao Arcade Fire sem dor na consciência. Não ia dar para perder o pandemônio que o septeto canadense prometia promover no palco. Começaram a apresentação com a épica ‘Wake Up’ e seguiram com ‘Neighbourhood’, ‘Haiti’, “Crown of Love’, até o final apoteótico com ‘Rebellion (lies)’. Era impressionante observar o envolvimento da banda e do público com o que estava acontecendo. Catarse, messianismo, pode escolher o clichê, qualquer um se aplica à situação. Nem por isso o show deixou de ser bom, de fato, foi um dos melhores do festival. Incrivelmente intenso e espontâneo, sem deixar transparecer que era tudo ensaiadinho. Os músicos demonstravam gosto pelo que estavam fazendo, parecia que era a única coisa que gostariam de fazer naquele momento. Trocavam de instrumentos freneticamente, batucavam capacetes e caixas de retorno e se penduravam na primeira estrutura que vissem pela frente. É muito melhor ao vivo do que em disco, o som toma uma proporção maior, mais adequada às intenções musicais da banda. É tudo mais bonito e melancólico. Impressiona quem assiste pela primeira vez.
Filipe Luna, repórter da Trip
De última hora
Até dias antes era o Autechre que deveria tocar nesse palco. A dupla inglesa cancelou, alegando problemas pessoais, e a gravadora Warp mandou em seu lugar, um artista que canta mais com o coração. Particularmente, o baticum do lado esquerdo do peito agrada mais do que o quadradismo cabeçudo IDM. Quando o soulman branquelo entrou no palco vestido com uma capa e um quimono e acompanhado do cinegrafista Pablo Fiasco, o público era apenas razoável. Muito em virtude do atraso de uma hora e meia para o começo das apresentações. A platéia podia ser pequena, mas se empolgou bastante com Lidell. Ele mostrou por que é considerado o sucessor de ilustres como Otis Redding, Marvin Gaye, Stevie Wonder e Prince. Não dá para dizer exatamente o que ele tocou porque quase tudo era simplesmente improvisado na hora. Com uma mesa cheia de aparelhos eletrônicos, o artista começava a samplear a si próprio fazendo beatbox e depois misturava isso com a base que estava tocando. Nada era exatamente igual ao que estava no disco, mas as músicas ainda eram as mesmas na essência. Tocou trechos da princiana ‘When I Come Back Around’, da reddiana ‘This Time’ e da marviana ‘What’s the Use’. Encerrou com ‘Multiply’ e deixou o pequeno público surpreendido. Ele mesmo pareceu se divertir muito durante a brincadeira toda. O convidado de última hora acabou roubando a festa.
Filipe Luna, repórter da Trip
