Foto Fernando Lazslo
Muitas vezes me pego aqui em Londres saindo da escola onde cursei o ginásio, em São Paulo, e subindo a rua Prates em direção ao fliperama na esquina da rua Três Rios. A memória exata da cor e do nome de cada prédio do bairro do Bom Retiro, a visão precisa do brilho ofuscante da careca do dono da papelaria Mildina, o gosto lembrado do sorvete de morango no banana split da Saladinha Paulista e o tesão precoce que sentia pelos peitos da balconista da Ótica Primor me confortam, me dão uma estranha certeza de que eu sou eu mesmo.
Mas na semana passada essa certeza foi abalada. Nesse álbum de memórias tem um velho que andava pelas ruas do bairro vendendo uns doces estranhos, uns canudinhos de massa frita recheados com creme de baunilha e chocolate. Anunciando seus doces, eu me lembro claramente que ele gritava sem parar: “Abatinabantina, abatinabantina”. Para mim ele era o “Seu Abatinabantina”.
Comentando essa memória por e-mail com um amigo do bairro, descobri que em sua lembrança o velho gritava algo totalmente diferente: “Barequina, barequina”. A coisa me perturbou. Como “barequina, barequina”? Eu posso jurar que era “abatinabantina, abatinabantina”.
Seu Abatinabantina
Escrevi para toda a moçada do Bom Retiro perguntando como eles se lembravam do grito do velho. Tem quem me garante que era “atilabantchina, atilabantchina”. Outros se lembram precisamente de “baritchina, baritchina”, “abatchinicana, abatchinicana”, “atirabantinaa, atirabantinaa” ou até mesmo “atonicamantica, atonicamantica”. Para minha total confusão, uma outra figura do Bom Retiro diz ter uma vez perguntado ao Seu Abatinabantina o que é que ele gritava. A resposta foi: “Pastechina, pastechina”. Mas o que é uma pastechina?
Passei vários dias investigando e elaborei uma teoria. Me lembrei de cannoli, doce típico de Palermo, na Sicília. Os tais canudinhos recheados pareciam muito com cannoli. O Seu Abatinabantina era provavelmente italiano. Talvez ele tenha dito ao meu amigo que gritava “pasticcino, pasticcino” e pasticcino em italiano é qualquer docinho de massa recheado com creme.
Como é rica de significados a viagem que transformou pasticcino em abatinabantina ou abatchinicana. Os diferentes modos de interpretar e de lembrar o grito daquele velho dizem algo misterioso e essencial a respeito de cada um de nós no Bom Retiro.
Tudo de bom e de ruim que se dá entre o céu e a terra se encontra neste percurso mágico das palavras desde a boca até os ouvidos, no itinerário impreciso dos atos lançados no espaço e no tempo até o momento de sua percepção pelos outros. Ontem era um outro país onde se falava uma outra língua. E, com certeza, não somos quem pensamos ser.
*Henrique Goldman, 44, cineasta, tem memória seletiva e acurada. Seu e-mail é: hgoldman@trip.com.br
