Teresina, meu amor...

por Luiz Alberto Mendes em

 

Fui convidado para ir à Teresina para fazer um roteiro bastante apertado. Chegaria no dia 20 de madrugada; às 8:00 horas viriam me levar à penitenciária feminina fazer 2 horas e tal de Oficina; trariam de volta para o hotel perto do meio dia e às 15:00 horas iria para a penitenciária masculina começar uma nova Oficina. No dia seguinte seguiria o mesmo roteiro, completando 4 horas ou mais de Oficina nas duas penitenciárias, mas na hora do almoço daria uma entrevista à revista Revestres e à noite faria palestra na Livraria Anchieta, no centro de Teresina, Piauí. Na madrugada do dia 22 retornaria à São Paulo.

Embora soubesse que em 4 horas não se faz uma Oficina que realmente levasse conhecimentos substanciais aos ex-companheiros presos, sabia também que seria melhor que nada. Aceitei e fui, cheio de esperanças; tentaria dar o melhor de mim no curto espaço de tempo que me permitiriam. Mas já sai de São Paulo com a garganta irritada, com receio de não suportar os dois dias de falação.

Às duas horas da madrugada não havia ninguém me esperando no aeroporto. Peguei um taxi e fui para o hotel Arreis, onde haviam me colocado. Depois das 8 horas um guarda de presídio veio me buscar de carro. O calor já era demasiado para mim. A entrada à prisão foi bastante facilitada, sem burocracia, vexame de revista; me senti bastante respeitado e tranquilo. A Diretora da prisão foi gentil, recebeu-me com um sorriso, boa vontade e disposição para facilitar. Levou-me a um grande salão onde haviam muitas carteiras escolares; tudo parecia previamente preparado. O professor Wellington, pessoa que me contratara e organizara todo meu roteiro, nos esperava na sala. Apresentado, logo me simpatizei com o sujeito e começamos a conversar. As meninas foram chegando; a maioria muito jovens. Logo tínhamos as 30 ansiosas participantes da Oficina.

Wellington me apresentou. Ele já me conhecia e falou do projeto de me trazer à Teresina. Ele havia participado da Balada Literária promovida pelo amigo Marcelino Freire e ficara impressionado ao ouvir minha fala. A partir dai, dedicou-se ao objetivo de me trazer a Teresina. Quando me foi passada a palavra, eu já sabia o que dizer. Contei minha vida, assim resumida, para as garotas. Com tropeços e sucessos. Elas me escutaram comovidas. Ao final, já haviam se passado 2 horas e tal e era preciso encerrar para as moças irem almoçar. Foi emocionante; elas haviam me ouvido com carinho e atenção e vieram para o abraço. Então chegaram os livros: o Secretário de Justiça do Estado havia adquirido 30 livros "Memórias de um Sobrevivente", de minha autoria, para ser dado a delas. Fiquei sendo abraçado, beijado e fazendo dedicatórias nos livros mais meia hora. Comovente o carinho delas comigo.

À tarde, após o almoço com Wellington, fui à penitenciária masculina. Era bem mais tenebrosa; o guarda que abriu a porta da escola estava com a arma quase que na mão. Em contra partida havia a psicóloga da unidade, Vanessa; pessoa delicada, doce e extremamente dedicada aos internos. Ela nos facilitou tudo e era perceptível a confiança que os presos depositavam nela. No começo, alguns ex-companheiros ficaram com conversas paralelas, um tanto quanto desrespeitosos. Parei e pedi atenção. Dei o melhor de mim na conversa que mantive com eles; ao final todos, sem exceção, vieram me abraçar. Ganharam o livro também e queriam a dedicatória também. Novamente foi muito emocionante e ali me senti mais realizado; o povo estava mesmo comovido e tocado pela minha fala. Sai andando em nuvens.

Não consegui dormir direito à noite; a garganta parecia estar em brasas, tossi agoniado quase a noite toda. De manhã a voz falhava e a garganta rascava, dolorida. Temi não conseguir completar o roteiro. Na penitenciária feminina passei alguns tópicos mais importantes de minha Oficina e encerrei quando o Wellington chegou. Agradeci às meninas emocionado fora uma alegria falar com elas. Depois houve uma festinha de despedida com bolo e suco que a Diretora, gentilmente, promoveu para nós. Sua auxiliar me deu remédio para a garganta que agora estava ardendo em fogo.

Wellington me levou a um restaurante para comer o tal de "capote", comida típica local, feita de galinha de angola. Lá estava um casal de jornalistas da revista Revestres que o anfitrião também fazia parte. Perguntaram bastante e gravaram tudo. Logo chegou o fotógrafo que tirou fotos até cansar.

À tarde, fomos para a finalização da Oficina na penitenciária masculina. O guarda estava armado com uma assustadora espingarda calibre doze na porta da escola. Fizemos nosso trabalho, o pessoal estava gostando de nós, foi difícil encerrar. Então nos avisaram que o Secretário da Justiça estava vindo; as minhas Oficinas haviam sido transformadas em projeto de iniciação para novas atuações culturais. Fiquei surpreso quando o homem chegou. Era um rapaz novo e parecia muito humano. Cumprimentou apertando a mão de cada preso e depois chegou em mim cheio de entusiasmo, me agradecendo efusivamente pelo meu trabalho. Gostei sinceramente dele, era novo no cargo e vinha dos Direitos Humanos da OAB; confiei e acreditei em suas palavras dirigidas aos ex-companheiros.

Depois do banho no hotel (tomei cerca de 5 a 6 banhos por dia, era muito quente), Wellington me levou à livraria. Era enorme. Meus livros estavam organizados à uma mesa E o Secretário da Justiça, agora acompanhado pela noiva, já me esperava lá junto ao público. Conversamos, a promessa dele agora era de me levar às demais penitenciárias do Estado; cerca de mais 16 delas. Seria o começo de uma iniciação cultural.

Então, depois das apresentações do Wellington, foi me dada a palavra. Soltei o bicho emocionadamente. Minha voz falhava dando um tom dramático à minha fala. A noiva do Secretário chorava, outras mulheres também, entrei na onda com a voz embargada. Consegui me expressar bem, embora as falhas da voz e conclui meu trabalho de dois dias com chave de ouro. As palmas foram vivas, sinceras. Depois o Secretário e sua noiva tiram muitas fotos comigo. Fiz dedicatória em muitos livros e todos queriam fotos nos celulares. Foi uma festa e eu era o centro. Como faz bem ser assim querido, prestigiado, mesmo que momentaneamente...

Às 4 horas da manhã, depois de agradecer e ser agradecido pelo amigo Wellington, embarquei para são Paulo, já sem fala, apenas sussurrando, mas feliz da vida... Grato, Teresina por toda essa oportunidade de fazer meu trabalho e toda essa alegria!

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Luiz Mendes

23/05/2015. 

     

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