Nasci e me criei em um mundo sem televisão. Na rua em que morava, a TV só foi aparecer em 1965, na casa de uma vizinha. Morávamos na Vila Maria, subúrbio de São Paulo. De vez em quando nos permitia assistir a desenhos animados com seus filhos.
A novidade não era tão grande assim. Nossos brinquedos eram bem mais interessantes. Havia tempo de balão, de pipa, de caçar passarinhos com estilingue, pescar, nadar nas lagoas próximas, explorar matas, percorrer distâncias de bicicleta, brigar com a molecada da rua de cima, jogar bolinhas, pião e figurinhas a bafo.
Tento passar esse conhecimento para meus filhos e não consigo. Balão é proibido; pipa pode matar; passarinhos não há mais e estilingue virou arma; as lagoas foram aterradas; as matas derrubadas; é perigoso andar de bicicleta nas ruas; meus jogos infantis não têm mais sentido.
Sinto-me frustrado como pai. O videogame lhes é muito mais interessante; a televisão tomou conta de todo tempo que eles possam ter. Não gosto desses jogos eletrônicos. O corpo necessita de ação, e a mente de vida.
Acho televisão um entretenimento idiotizante. Na prisão era usada como estupefaciente. Durante a primeira metade do cumprimento de minha pena de mais de 30 anos, a TV era proibida na cadeia. Então pude desenvolver minha mente com estudos e literatura. E essa é minha base para escrever hoje.
A liberação de entrada dos aparelhos televisivos nas penitenciárias foi acontecer em 1984 quando, após duas décadas de ditadura militar, o primeiro governador, Franco Montoro, foi eleito pelo voto direto. A política dos Direitos Humanos começava a ser implantada nos presídios de São Paulo.
Estávamos, até então, sob a lei do espancamento com cano de ferro e cela forte diante de qualquer vacilada. Opressão total que nos esmagava até os ossos. Estávamos inteiramente alienados e estupidificados pela violência reinante. Matávamo-nos uns aos outros como porcos. A brutalidade imperava. Quem podia mais chorava menos. Criavam-se monstros que posteriormente viriam a exacerbar os índices de violência e criminalidade no Estado.
Com a liberação da televisão, novas vidas instalaram-se dentro de nossas celas. Lutei desesperadamente para, junto com minha mãe e amigos, comprar o bendito aparelhinho. Passei uma semana sem dormir e sem sair da cela, assistindo. Até as propagandas eram extremamente interessantes.
Hoje não assisto mais. Não suporto ser dividido em 7 minutos de alienação pura e 3 minutos de condicionamento psicológico para me tornar consumidor. Nos melhores e piores anos de minha vida não vivi a inércia da TV e consegui aprender a me concentrar sem interrupções. Hoje sinto a televisão como uma doença. Sou grato por tê-la vivido com minha mente e meus valores já formados para ser crítico e questionar.