Ícone do site Trip | Conteúdo que transforma

Teletransporte

UMA FESTA NO RIO EM QUE UM DJ BRASILEIRO TOCA FUNK PARA
ESPANHÓIS DANÇAREM EM BARCELONA SE TRANSFORMA EM
UMA RAVE VIRTUAL. OU UMA RAVE DE VERDADE?

POR RONALDO LEMOS*

Uma janela para o futuro abriu-se em uma sala da PUC no Rio de Janeiro.
Nos dias 25 e 26 de setembro, enquanto muita gente se preparava para o Tim
Festival, uma conexão de altíssima velocidade foi estabelecida entre o Rio e
Barcelona, permitindo o envio de sons e imagem em tempo real e alta
definição. Esqueça a idéia de uma webcam conectada à rede. Esqueça também
os delays de programas como o Skype. A conexão que se estabeleceu
entre os dois países nesse experimento revelou de forma clara e assustadora
as possibilidades da chamada web 2.0, que funciona a partir de conexões
de altíssima velocidade.

Para se ter uma idéia, foram necessárias três semanas para que a
conexão fosse estabelecida, graças ao trabalho conjunto dos engenheiros da
RNP (Rede Nacional de Pesquisa, instituição governamental pioneira na
implementação da infra-estrutura da internet no Brasil) e o evento Arte Futura
de Barcelona. Curioso: o tema do evento em Barcelona era justamente de
especular qual é o futuro da internet. Nem precisava – o experimento falava
por si mesmo.

Uma vez que uma janela como essa se abre, que tipo de “conteúdo” vai
trafegar através dela? A resposta a essa pergunta ficou com os brasileiros,
mais especificamente nas mãos do antropólogo Hermano Vianna, que constituiu
uma equipe de trabalho no mínimo pouco comum: além dos engenheiros
e cientistas da computação, havia também artistas visuais e outros profissionais
das ciências humanas, responsáveis por executar a programação do
evento. A primeira idéia foi fácil. Os brasileiros participariam ao vivo de um
simpósio do evento Arte Futura, fazendo uma palestra em tempo real a partir
do Brasil. Até aí nada de muito revolucionário, apenas uma videoconferência
em alta definição, incrementada pelo trabalho do artista Leando HBL,
responsável por projetar paisagens visuais durante a intervenção brasileira.

O mais interessante viria no dia seguinte. Aproveitando que era noite de
festa na Espanha, por que não colocar um DJ brasileiro tocando no Brasil para
os espanhóis dançarem por lá em tempo real? Para isso foi convidado o DJ Sany Pitbull, representante da nova geração do funk carioca, batizada
como “pós-funk”, principalmente por não ter medo de misturar o funk
“tradicional” com outras referências, da disco ao rock. O coquetel foi
explosivo. A austera sala de computação da PUC começou a balançar
com as primeiras batidas misturando Nirvana com funk carioca feitas
pelo Sany e os sinais eram mandados em tempo real para Barcelona.

RAVE VIRTUAL
No começo, a timidez era a regra nos dois lados. Tanto brasileiros
quanto espanhóis com um pouco de medo de se jogar para valer. Até
que alguém foi acidentalmente pego pela câmera provocando os espanhóis
para dançar através dos telões de alta definição. A partir daí a coisa
pegou fogo. O grupo reunido na austera sala da PUC começou a interagir
com as pessoas de Barcelona e uma grande rave virtual se estabeleceu
entre os dois continentes. Em alguns momentos a câmera filmava
os brasileiros dançando com os espanhóis (através dos telões) que por
sua vez se viam na Espanha dançando com os brasileiros através do
sinal que saía daqui. Em poucos minutos, não dava mais para saber o
que era virtual e o que era real, criando um estado de desorientação, que
unia aquelas pessoas em uma experiência rara e difícil de descrever.

A festa durou um bom tempo. O resultado dela foi uma perplexidade
geral com as possibilidades da expansão das redes de alta velocidade.
Noções como “espaço”, “interatividade” e “presença” são colocadas
em xeque. E esse parece ser mesmo um dos futuros possíveis
da rede, uma vez que a banda está se tornando cada vez mais larga. As
possibilidades de interação, algo como “seja seu próprio avatar”, são
ainda inesgotáveis. Com isso, os habitantes do Second Life devem estar
olhando para essa nossa boa e velha “first life” e morrendo de inveja.

*Ronaldo Lemos é diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV-RJ e um dos fundadores do Overmundo (www.overmundo.com.br)

Sair da versão mobile