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Tamanho

Desde pequeno eu já era pequeno. Apelidos como Catatau, Pequeno, Tampinha, Meio-quilo, Gigante e outros piores me eram imputados. Sobre esse preconceito, ninguém fala. E sabe por quê? Acho que é porque alguns dos principais personagens da história eram homens de físico reduzido. Como Napoleão Bonaparte. Quando seu tamanho não dava para alcançar um livro que estava no alto da estante, pediu a Junot, um de seus generais, que o pegasse. Depois de responder ao pedido, o general afirmou que era maior que seu imperador autocoroado. Este lhe respondeu: “Maior não, apenas mais grande”. Getúlio Vargas, o maior estadista brasileiro, era baixinho. Falavam que tamanho não era documento. Que mais importante que o tamanho de um homem é o tamanho da briga desse homem. Mas as garotas me viam como: “Aquele baixinho lá…”. Na escola não precisava ser muito grande para querer medir minha febre, testar. Andei sempre com canivete no bolso, estilingue no pescoço e, por um tempo, porrete na bolsa escolar. E me dava mal. Porque, depois da ação defensiva ou ofensiva, meu pai era chamado na escola. Ele não conseguia perceber. O pedaço de porrete fora ele quem cortara de um porrete maior que andava em seu táxi. O sofrimento para mim era bem maior. Além da surra de cinturão que ele me cortava, ficava o mês todo de castigo sem poder sair de casa. Depois veio a adolescência. Cresci um pouco mais, mas sempre me senti pequeno perto dos outros, maiores que eu. Acho que é trauma que minha mãe me passou. Aos 12 anos de idade, ela teve meningite. Não cresceu mais, daí para frente, apenas se desenvolveu como mulher. Ela tinha 1,42 metro de altura. Mas era muito delicada, bonita e bem proporcionada, apesar de pequena. Não gostava nem um pouco de ser baixinha. Andava de sapato o mais alto que agüentava e esforçava-se muito para suplantar o tamanho. Tive sempre que provar que, apesar de pequeno, eu resolvia com qualquer homem. Desafiado, vencia o medo e então complicava. Acho que isso tem alguma responsabilidade pelo fato de haver passado quase a vida toda preso. Enfrentei todos os desafios que me foram propostos. Estar aqui, vivo, lúcido e escrevendo foi um dos maiores. Isso quer dizer que, quando desafiado, geralmente venci. Isso é bom de constatar. Diante tantos fracassos e dificuldades, uma boa notícia, afinal.
Cresci na prisão. Cheguei lá aos 19 anos de idade. Era, junto com o Rubens Borba, o menor preso que havia na Penitenciária do Estado. Tempos difíceis. Não havia visita íntima. A pederastia imperava nas prisões. Não era algo consentido. A coisa rolava grosseira com estupros diários. Os menores eram sempre os mais visados. Éramos vistos como desejáveis. Particularmente se fôssemos jovens e de corpo liso de pêlos, como era meu caso.
Fui obrigado a brigar várias vezes, e de faca nas mãos. Andava no pátio de recreações qual gladiador. Com dois ferros superafiados na cinta. Um na frente e outro atrás. Se perdesse um, ainda teria o outro. Em três ou quatro, os estupradores jogavam o cobertor na cabeça do sujeito e o dominavam. O sujeito nem sabia quem o estava estuprando. Cheguei a matar um desses na prisão, para conservar minha “honra”. Como se houvesse alguma honra nisso. Isso de o preso abusar do próprio preso, pelo menos assim grosseiramente, felizmente acabou.
Acho que cheguei ao tamanho que tenho atualmente aos 30 anos de idade. Estou com 1,66 metro. Não sou mais propriamente um baixinho. Há alguns anos, eu seria considerado de estatura mediana. É, mas nesse tempo o Brasil não tinha times de vôlei e muito menos de basquete para disputar nada. Éramos uma nação de baixinhos. Hoje a história é outra. Acho que me reduziram a baixinho novamente, como aquele ridículo da Kaizer. Os jovens são enormes, esticados, assim desengonçados, não é bonito.
Os baixinhos agora estão virando minoria. A discriminação e o preconceito começam a ganhar volume. As garotas são enormes, como sairiam com um baixinho? Pendurando como brinco? As roupas agora são feitas para pessoas magras e altas. Tudo cai mal para o baixinho. Se ele não tomar cuidado, fica parecendo um barril amarrado na cintura. Os baixinhos são o caixa das costureiras que fazem ajustes em roupas. Os assentos, bancos e cadeiras nos deixam com os pés balançando no ar, é revoltante!
Ainda bem que agora, com 55 anos de idade, nem ligo mais para isso. Agora constantemente sou chamado de “velhinho”, que é pior, e nem posso falar nada. Estou velhinho mesmo… Agora, não suportaria ser chamado de “velhinho baixinho…”. Responderia logo: “É a mãe!!!”.

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