A paz está na certeza de que não há paz. Ou seja: a paz que sonhamos inexiste. Este não é o melhor dos mundos, embora possa ser por momentos. Existem sempre motivos pelos quais viver, mesmo nas piores condições. Há dignidade até no fato de se estar preso. Certa nobreza no cumprimento da pena. Errei, mas paguei caro cada erro cometido.
O complexo e o paradoxal caminham paralelos. De tal sorte que ficamos perdidos dentro de nós mesmos. Porque nunca nos enganamos: a luta, o empenho é sempre a partir de nós. A busca da paz parece, tem a ver com a busca do autoconhecimento. Estamos condenados a nós mesmos. Somos de tal modo complexos, que misteriosos. Estranhos em demasia, indevassáveis. E aí é que se encontra o problema. Não nos conhecemos. Nem sabemos avaliar até que ponto nos desconhecemos. Não sabemos lidar conosco. Mesmo pela insegurança que estamos com relação a nós mesmos.
Paz interior, móvel, estruturada em estado de alma, a paz tem muito a ver com o momento. Então, como admitir a existência de algo que depende? Se depende, possui existência relativa. Depende. Mas tudo também parece relativo. Nada é permanente, a não ser o pensamento. Está sempre ativo, exercendo sua função que é, mesmo que redundante, pensar. Pensamos e realizamos existências. Mas realizamos a paz pensando? Pensamento já se provou inimigo do homem inúmeras vezes. Promotor de guerras. Fazer o quê, senão tatear pelo já conhecido?
Sinto, logo existo
Já que chegamos a esta questão, nós somente pensamos? Somos mais que pensamento? Acho óbvio que sim. Pensar parece deixar tudo igual. Sentimos também. E aí cor, luz, emoção e diferenciação. Somos, invariavelmente, movidos por emoção. O pensamento segura o que sentimos. E as emoções, parece, sempre nos levam a perder, ou a conseguir, a possibilidade da paz.
Seriam as emoções inimigas ou amigas da paz, e, portanto, nossas amigas ou inimigas? Mais certo é pensar que nós, seres que sentimos e pensamos, é que somos amigos ou inimigos de nossa paz. Mas por quê? Seria porque viver é ir contra a idéia que se tem de paz? Não ter problemas ou dificuldades? Estar em perene serenidade e tranqüilidade? Mas como isso, num mundo convulsionado como o nosso? Seria uma não-vida – um espaço distante desse mundo que, quer queiramos quer não, é nossa realidade.
A realidade é a professora chata que fica a exigir de nós. A mãe a nos controlar. O pai cerceando horários. A namorada a exigir uma fidelidade impossível. A esposa enchendo o saco que quer comprar e nós com planos diferentes de como gastar aquele dinheiro. O marido querendo sexo sempre, sem querer entender que nem sempre se está a fim. São os filhos a nos trazer preocupações não programadas. É o fim do mês e nós sem nenhum tostão. As calcinhas esgarçando e nenhum dinheiro para repô-las. O patrão a cobrar empenho sem dar a contrapartida salarial. E uma quantidade excessiva de motivos para o saco cheio e a falta de paz.
Em poucas palavras: viver é dinamismo, amplitude e expansão. E, sem dúvida, conviver com todas essas tristezas citadas. O que não é fácil, e por isso trazemos as mãos cortadas de astros e mundos. Experiências que exigem empenho total, desprendimento e muita coragem. Tudo isso gera conflito. O ser é, em si, conflito na medida mesmo em que não se define, apenas vai sendo, agregando e sedimentando. E conflito, é preciso admitir, é o antônimo de paz.
Pela paz em todo o mundo
Então, em que ponto ficamos relacionados à paz? Se para viver é preciso gerar conflito, e conflito por sua vez é o contrário de paz, então, o que pensar? Que a paz é impossível? Acho que não. Tudo que o homem é capaz de pensar é capaz de realizar. A paz não seria exceção. Só que não será como está convencionado, com certeza. Porque, como disse no começo, a paz reside na certeza de que não há paz. Pelo menos não essa paz de anjos, de placidez, de parar o mundo para descer. A paz pode estar em lugares bem insuspeitos. Como na atividade constante, por exemplo. Na realização de nossa finalidade de existir. E o que vem a ser essa finalidade? Realizar o que somos em potencial, presumo.
Realizar exige vida. Vida é coexistência; coexistência são relações humanas. Relações humanas inferem conflito pela própria indefinição de cada um de nós. Paz, parece, tem a ver com aprender a viver sem ela. Construir paz da não-paz. Estar consciente de todos os predicados da existência. Conviver com eles, cientes de que são necessários ao nosso desenvolvimento.
Tudo que exige sacrifício ao fim torna-se realizante pela própria ultrapassagem que enseja. Sobretudo, há a paz oriunda de se saber que se fez todo o possível. Que se fez o melhor que se podia fazer. Se bem que nunca vamos julgar que fizemos o melhor. Sempre pensamos que podíamos ter feito melhor ainda. Paz me parece mobilidade. Fazer, criar e viver na certeza de que nossa vida deve ter um sentido e que o alcançaremos, com certeza.
*Luiz A. Mendes, 49, vive há 30 anos a paz possível numa prisão. Seu e-mail: mendes@revistatrip.com.br
