Estou feliz. Você que me lê deve estar estranhando tal afirmativa. Mas estou; estou muito feliz. Meus sonhos, meus projetos estão sendo realizados. Foram três anos lutando, procurando quem se dispusesse a ser parceiro na realização de tais projetos. Um já era: o Guia do Egresso foi lançado oficialmente em 10 de abril, e tem sido um sucesso. Acho que ainda não foi percebida toda sua importância. O tempo ensinará, tenho certeza.
Agora estou realizando meu sonho mais acalentado. O pouco que sei, aprendi na prisão. Foi lá, ainda, que construí a determinação para encarar meus projetos pessoais. Sonhei a vida toda (31 anos e 10 meses) em sair e voltar na forma de grandes empreendimentos educacionais e culturais. Sei que todo o mal do povo aprisionado é a ignorância, o nada ter de seu, vida dura, favela, desemprego, discriminação racial e principalmente econômica. O poder corrompe, mas a falta de poder corrompe muito mais.
Venho trabalhando com o Instituto Ecofuturo há algum tempo. Prestei assessoria, fui jurado de seus concursos literários e estive presente em vários de seus empreendimentos sociais. No ano passado fui jurado de seu 5º Concurso Literário, que foi desenvolvido em todas as escolas de ensino fundamental do país. Foi com alegria que li e reli trocentas redações; classificar foi extremamente dificultoso; todas mereciam prêmios.
Ao final, fomos descobrir o que sonham as crianças e os jovens do Brasil. O resultado foi surpreendente. Seus sonhos eram curtos; sonhavam com vida materialmente confortável para os pais e estavam altamente influenciados pelos modelos das novelas. A conclusão dos especialistas é que não sonham mais alto porque têm medo. Particularmente quando vivem na miséria, na ignorância e à mercê da violência. Essa é uma realidade que precisamos encarar e refletir muito, se quisermos um país melhor.
Neste ano, o tema do 6º Concurso de Redação Ler é Preciso é “A vida que a gente quer depende do que a gente faz”. Haverá participação de três novas categorias: Ensino Médio; Educação de Jovens e Adultos; e a dos Professores. Essa nova categoria chamada de “EJA” é para os cursos de madureza, e isso, democraticamente, envolve as escolas das prisões no concurso.
Fui convidado, e aceitei prontamente, pela diretora de Cultura e Educação do Instituto Ecofuturo, a realizar oficinas literárias com ex-companheiros aprisionados nas penitenciárias do Estado de São Paulo. São monitores presos, como eu já fui por anos; verdadeiros educadores, dedicados e fiéis. A missão é prepará-los, experimentalmente, para que participem e ajudem os seus alunos a participar do Concurso Literário.
Precisam desse reforço, desse apoio. Estão entrando agora no concurso, e as escolas das prisões, apesar de honrosas salas de aula onde homens aprisionados (falo sempre “homens aprisionados”; não encontrei cães, cavalos ou qualquer tipo de animal lá dentro) são alfabetizados e depois orientados para os exames supletivos, não certifica nem segue esquema de séries escolares. A certificação vem do Departamento de Recursos Humanos. Não há documentação reconhecida de seus estudos anteriores, a não ser certificado de matérias que tenham eliminado enquanto aprisionados.
Claro, os educadores que vêm de fora se esforçam muito. São muito bem recebidos e aproveitados. Não conheço um só que tenha reclamado de seu público. Diziam que preferiam muito mais dar aulas nas prisões que nas escolas públicas. Lá eram respeitados, ouvidos atenciosamente e até paparicados. Ninguém tentaria matá-los, assaltá-los, colocar droga no carro deles, nenhum risco. Era só gentileza e respeito o tempo todo. O preso respeita profundamente a escola e o professor, são preciosas fontes de relação com o mundo. Então, estou feliz porque se confirmou mais um de meus projetos: farei oficinas literárias com meus ex-companheiros de prisão. Vou levar o que aprendi lá dentro e o que tenho refinado no filtro da realidade aqui fora. Estou realizando um sonho. Lutei três anos e consegui a respeitabilidade que vai me levar de volta, agora para colocar em prática o que tenho falado.
