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Sonho de letrinhas

Certo domingo, ao despertar de sonhos intranqüilos, me pego envolto numa névoa de angústia e mistério. Angústia e mistério sobre a vida. Em pouco tempo, no entanto, tudo se explicaria. A vida estava parada de seu enigma movente e, estupidamente, imaginei que iria saber o porquê de tudo isso. Mas era algo impalpável e estava totalmente fora do meu alcance. Precisava de alguma delicadeza para começar o dia. E, nesse exato instante, antes mesmo de esfregar e abrir os olhos, o impossível tornou-se possível de maneira maravilhosa: lembrei-me de que havia programado um passeio na Bienal do Livro, em São Paulo. No caminho lembrei de quando lancei Tesão e Prazer, dois anos atrás, naquele mesmo espaço. Havia saído há poucos dias, depois de 31 anos e 10 meses de prisão. Diante dos meus olhos inaugurava-se um mundo novinho em folha. Tudo tinha cheiro de novo, deliciosamente desconhecido. Quantas sensações estranhas e complexas. Assimilar era impossível, restava devorar enquanto a ansiedade descia ladeira abaixo.

Faltava aquele mundo para eu caber. Tudo era único. Desenrolei o rolo de arame farpado que até então me envolvia e passei a viver espontaneamente. Aquele era meu mundo, de gente que ama ler; e disso eu entendia bem. Pela primeira vez me senti integrado – feliz por fazer parte de uma multidão. Dentro, novamente sensação de completude, de estar onde deveria estar. Nenhuma pretensão de encontrar verdades. Apenas vontade louca de reter, de entrar para dentro daquele mundo dos livros e nunca mais sair. Aquela deveria ser uma festa permanente. Alegria selvagem me sustentava como uma pergunta no ar. Os nervos acompanhavam cada passo além dos inesperados movimentos da alma.

Perdi-me ene vezes naquele sem-número de venidas. Não sei quantas vezes passei por cada editora ou livraria. Quanta novidade. Um surto de esperança me envolveu. Meu coração ficou pequeno. Então é verdade que o país está aprendendo o valor do livro? Haverá, assim como eu, mais amantes dos livros? Senti vontade de chorar. Para me aproximar ainda mais das pessoas, concluí, era só prosseguir e escrever. As pessoas lerão, entenderão e então poderei chegar, ultrapassar a solidão e estar com todos. Livros, livros, livros que não acabavam mais. A única coisa lamentável, apesar dos descontos, era o preço. Comprei apenas três, quebrando o orçamento. Irresistível. Queria levar um caminhão de livros. Centenas, senão milhares de títulos, me fascinavam e causavam angústia. Quanto mais andava, mais triste fui ficando. Ali estavam centenas de livros que desde a prisão ansiava ter. Não, não me basta ler, queria ter para mim. Sou desses maníacos que alisa livros, que só falta lambê-los. Folheio com carinho e extremo zelo, leio e releio trechos, admiro a arte das capas, título, tipo de letras, capricho e cuidado na diagramação. Leio toda ficha técnica, nome dos tradutores, revisores, apresentadores e do publisher. Tenho amor, paixão por livros. Eles me salvaram, salvam e salvarão sempre, tenho certeza.

Meus três livros publicados também estavam expostos. Autografei alguns nas editoras em que publico. Estaria ali lançando livro novo, caso a edição não houvesse sido adiada para o mês próximo. Seria legal, mas as vendas não corresponderiam, como queriam me convencer os editores. Bienal é lugar de exposição, não propriamente de vendas, segundo eles.

As cordas da roldana do tempo puxavam aquelas horas para além da duração. Mergulhei-as no caldo memorial e, sofridamente, fui me arrastando para a saída. A vontade era acampar e ficar a vida toda, lendo cada um daqueles livros, até ficar cego de vez. Ah, Borges! Agora estou em casa escrevendo, mas minha vontade e prazer ainda estão lá. Tenho que me vigiar para que meus passos não me conduzam até aquele mundo nobre. Afinal, como todo mundo, eu também preciso ganhar a vida.

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