Ontem, enquanto a voz do vento me falava estranhas linguagens, bateu a angústia. Dessas pontiagudas. Era saudade, nem sei do que, ou se de fato ela existia. Apenas um vazio se abrindo, revelando-se ao universo, faminto, devorador. Saudade de desafios, obstáculos, barreiras e limites. Saudades de mim, desde que protagonizo, embora coadjuvante, este ser que não me preocupa.
Então, e só então mesmo, me senti só. Deliciosa e destemperadamente sozinho. Há muito tempo que estar só é um privilégio do qual eu não abro mão. Na última penitenciária que estive, morávamos doze presos dentro de um único xadrez. As celas são ilhas de raiva, depósitos de ódios. As pessoas se entrechocam como que atiçadas por chamas interiores armazenadas. Mas, quando corria a cortina que privatizava minha cama, me considerava só. Só com as fotos de meus filhos e da namorada; com as cartas que recebia; com meus contatos com o mundo extramuros e o que mais importava: com a minha própria imaginação. Os livros sempre a preencheram de substâncias, mantendo-a sempre viva, pulsante.
Abria a porta da cela para a recreação e eu saía correndo em volta do pátio, desesperadamente. Corria uma, duas, três horas ao esgotamento. Quando parava, após alongamento e banho, a alma era leve e o coração pulsava harmoniosamente. Aquelas horas me pertenciam, nunca mais encontrei solidão tamanha. Somente então procurava amigos para compartilhar.
O importante não é o que acontece conosco e sim como reagimos ao que acontece conosco. Nós importamos. Nós damos significados porque somos nosso projeto e só existimos de verdade quando o realizamos. Então, estar preenchido, acompanhado de pessoa, ou só, envolvido consigo mesmo e com processos pessoais, tem o valor da consciência de cada um.
A generosidade, essa parte desconhecida e tão desejada de nós, essa consciência da falta dos outros, me dizia que tudo era possível. Não havia esperança. Isso sempre foi muito pouco. Tinha confiança de que haveria de existir sentido; algum que não conseguia dimensionar, mas que hoje vislumbro e me assombro.
Cada pessoa tem possibilidade sem fim. Mistério, um novo e imprevisível presente na expansão de suas dimensões. Carregamos todo o passado de nossa espécie. Nossos instintos, reflexos, fruições, cóleras, vêm de bem alto e longe. Estamos saturados de história, quase não somos capazes de fazer nada de novo. Caímos na armadilha da natureza. Disputamos e concorremos; nos odiamos e engolimos paixões vorazmente. Não podemos apenas fazer parte, como as plantas e os insetos. É impossível interromper a trajetória humana, mesmo por isso devemos sobrepujar o acaso.
Solidão é o escritor e sua máquina a tentar entender enquanto as palavras lhes fogem, o vazio se alarga e a vida pulsa no tempo que lhes resta. Nada é simples assim, sobram as coisas que nos faltam.
Enquanto isso, o sol, essa energia pura e sem vontades, brilha, arde e queima sem perceber nossa aflição.