A Felicidade é um perigo. Como tema. E é o tema desta Trip. Sinto o começo desta coluna como a arrancada para uma viagem perigosa em que o comboio de caminhões sempre desgovernados das minhas idéias agora desce uma serra íngreme, ladeada por um desfiladeiro de clichês, com os pneus carecas de medo e os pára-choques lotados de frases de auto-ajuda.
Tá vendo, leitor feliz? A felicidade é um perigo. Mal começo a coluna e já descarrilo para uma metáfora rodoviária cafona. Caminhões desgovernados das minhas idéias… Desfiladeiros de clichês… Pneus carecas de medo. Cafonice pura. Mas a cafonice, entre outras coisas, é uma ausência do medo de ser feliz. Viva a cafonice. Vou achar que comecei bem. Sigo em frente. Na banguela.
Falar o que sobre felicidade? O que me vem à cabeça não são idéias nem palavras. Vem a imagem dos meus filhos pequenos. A vontade de cheirá-los. Pegá-los. Vem um vento. Uma praia. Minha mulher. Meus pais. Meus irmãos. O transe da sala escura de um cinema. Um pedaço de bolo. Um pêssego. Vem tudo óbvio, e desconexo, e fora de ordem. Vêm tantas coisas. E a preguiça de traduzi-las em idéias. E mais ainda que a preguiça, vem a sensação de que não devo mesmo trocar em palavras nenhuma dessas sensações.
Vários trocaram. Felicidade é o momento presente. Felicidade reside sempre no futuro ou no passado. Felicidade é uma direção. Não um lugar. Felicidade é um subproduto. Não pode ser perseguida. Felicidade é a capacidade de contemplação. Felicidade é algo que pertence aos que se bastam a si próprios. Felicidade é coincidir vida e idéias. Felicidade é uma seqüência de acontecimentos aos quais não se oferece resistência. Felicidade é a ausência da dor. Felicidade é uma cidade pequenina.
De Chopra a Schopenhauer, de Sêneca a Moraes Moreira, as frases aí em cima não deixam muita dúvida. Não sabemos definir a Felicidade. Temos, é verdade, umas idéias vagas a respeito dela. Temos alguma noção do que ela pode ser e, sobretudo, do que ela não é. Temos, assim como o Morris Albert, uns feelings sobre ela. Mas não sabemos defini-la. Felicidade pertence àquela categoria de mistérios que inclui Deus, o Tempo, a Morte, a Beleza… E que talvez não sejam nem mistérios diferentes, talvez sejam um Mistério só. O Mistério. Mas nem isso sabemos com certeza.
Encharcado, e daí?
Lembro da história contada há uns quase 30 anos por um rabino, imaginário ou real, que eu li num jornal, imaginário ou real, não sei mais. “Imagine um inseto”, o rabino disse, “que só enxerga nas duas dimensões do plano. Ele só consegue olhar para frente e para os lados. O mundo acima dele simplesmente não existe. Se derrubarmos um copo d’água em cima dele, ele não terá idéia de onde a água veio. Mas, mesmo não sabendo de onde vem a água, ficará encharcado. Com Deus também é assim. Não conseguimos levantar a cabeça para enxergá-lo. Nossos sentidos não acessam a dimensão onde Ele se encontra. Mas, mesmo assim, a presença dele pode nos encharcar no meio de um dia”.
Para o rabino, o padre, o pastor, Deus é a Felicidade. Para mim, acho agora que é o contrário. A Felicidade é que é Deus. É ela que eu cultuo. É ela que eu quero que dê algum sentido à minha vida. E assim, em algumas tardes como esta aqui, agora, a Felicidade vem, sem que eu consiga definir o que ela é, sem que eu tenha a menor idéia de onde ela vem. E me encharca.
*Carlos Nader, 41, não tem medo de ser cafona – nem feliz. Seu e-mail é: carlos_nader@hotmail.com
