Se ver uma final de futebol no tobogã do estádio do Pacaembu já é uma experiência fantástica, inacreditável mesmo é vê-lo transformado numa rampa de 120 metros de comprimento, 25 de altura e 20 de largura, coberta de neve artificial, para um inédito campeonato de snowboard em plena São Paulo. Quem viu, não esquece.
Atletas de ponta do snowboard mundial, como Ingmar Backmam, Jonas Emery e Youbi Ahmed, além dos melhores brasileiros na modalidade, não economizaram na amplitude dos saltos e nas aterrissagens forçadas para agarrar os 10 mil reais de premiação e fazer os 45 mil presentes gritarem. Primeiro torneio-exibição de big air (competição em que se avaliam estilo da manobra, amplitude do salto e aterrissagem) em solo brasileiro, o SnowShow esquentou o inverno paulistano. Paulo Lima, narrador do campeonato, ficou encarregado de entreter e dar noções básicas do esporte à platéia leiga no assunto. Já os atletas brasileiros, apesar da ausência de neve no Brasil, de leigos não tinham nada. Aproveitaram a oportunidade de competir em casa e mostraram serviço. André Ciwinsky, único brasileiro que consegue dar front flip, mandou muito bem: conquistou o primeiro lugar entre os brasileiros, seguido por Gustavo Veiga, tricampeão brasileiro de big air. A rampa estava um pouco perigosa, porque não tinha muita neve. Mas deu para se atirar legal, diz Veiga.
O evento, patrocinado pela Nestlé e Switzerland Tourism, e apoiado pela TRIP, Rádio 89FM, Swissair e Flat Transamérica, custou 900 mil reais e fazia parte do Festival Suíça 2000, organizado pela Embaixada e Consulado Geral da Suíça. O objetivo do governo suíço era mostrar um país mais jovem e dinâmico, trazendo 15 eventos – o SnowShow, uma edição do Festival de Jazz de Montreaux e o Balé Groupe 13 de Maurice Béjart, entre outros.
No SnowShow, a proverbial eficiência suíça ficou por conta das quase 350 toneladas de nitrogênio líquido, muita água e snow-machines comandadas por 50 profissionais gringos, que mandaram neve suficiente para dois dias de apresentações. Destaque para o belga, Youbi Ahmed, 29 anos, não só pelo estilo e amplitude dos saltos, como também pela cabeleira urso do cabelo duro. Filho de marroquinos, Youbi adorou o Brasil. Confira as idéias deste simpático homem das neves.
TRIP Quando começou a fazer snowboard?
AHMED Experimentei a primeira vez em 1993. Mas só praticava nos feriados, porque a Bélgica é uma terra plana, ruim pro snowboard. No inverno de 95, me mudei para a França, onde moro até hoje, pra ficar perto das montanhas e treinar sério.
TRIP Pratica outros esportes de prancha?
AHMED No verão, tiro três meses só pra surfar. Comecei a andar de skate com 15 anos, mas há pouco tempo tive que parar, porque machuquei o tornozelo. Já wakeboard, pratiquei na França umas duas vezes.
TRIP Gosta de competir?
AHMED É muito divertido. Mas não é o que prefiro. Em competições, participo só do big air. Gosto mesmo é de free ride: subir a montanha e botar pra baixo pulando penhascos no meio da natureza. Grandes montanhas me satisfazem…
TRIP O que está achando do Brasil?
AHMED Até agora, tudo perfeito. Já me diverti bastante e ainda vou passar três semanas surfando em Salvador. Quanta mulher bonita! Ainda não experimentei, mas na Bahia terei tempo pra isso… Fiquei surpreso, porque aqui os ricos ficam em contato com os pobres, estão muito próximos. Saio do hotel cinco estrelas e encontro pessoas realmente pobres…. Nem sei o que dizer – ver pessoas morando nas ruas machuca. O bonito é que mesmo assim as pessoas sorriem pra você, te respeitam e mostram orgulho do país. Gostei muito disso.
