Não dá para ficar parado diante dos gritantes abismos sociais e suas conseqüências catastróficas. Substituindo a função dos órgãos, em tese, competentes, algumas empresas já perceberam vantagens, até econômicas, para a imagem em ajudar o próximo, ONGs são criadas com esse propósito e alguns indivíduos se propõem a dedicar o bem mais caro nos dias de hoje, tempo, para essa finalidade. O skatista Sandro Soares é desses.
Ciente da eficiência do esporte como instrumento de inclusão social ele promoveu, em 10 de maio, o 3º Torneio Estadual de Skate da Fundação CASA (ex-Febem), no Ginásio Baby Barione, na capital. Participaram da competição 39 internos de sete unidades, atletas escolhidos de acordo com a freqüência nas aulas e bom comportamento. O incentivo à rapaziada está consolidado. Reintegrar um jovem não é fácil, mas os ensinamentos da pranchinha são maiores que muitas broncas. “A maior lição não é simplesmente ‘esporte é saúde’”, conta Sandro. “Procuro passar os valores ocultos do skate, como lidar com obstáculos, ter garra e treino. Isso faz o adolescente não amarelar nos obstáculos da vida”, continua.
Para Sandro, que trabalha como voluntário desde 2000 e foi contratado pela fundação em 2004, “quando o menino toma um tombo, precisa levantar e ver onde errou. A CASA é um tombo, ele precisa ver onde errou e depois acertar a manobra da vida”. Engajado no projeto, a idéia é realizar a competição duas vezes ao ano, mas o professor é temeroso. Segundo o skatista, a iniciativa pode acabar a qualquer mudança de governador, secretário ou presidente da fundação – como aconteceu com o Surfebem, em São Vicente (SP).
O projeto vai além dos muros da CASA. Os vencedores das edições anteriores, Michel Ângelo e Alexandre Pacíficos, depois de suas desinternações, são patrocinados, recebem uma ajuda de custo e ajudam nas aulas do Clube Escola Vila Madalena – Desafio Oeste. O mesmo deve acontecer com R.F.S., vencedor deste ano e interno da unidade Franco da Rocha.
É claro que a realidade não é tão simples. A vida do interno, mesmo depois de reintegrado à sociedade, não é fácil. Para Sandro, “problemas eles ainda têm, mas a maneira de resolver mudou por causa do skate”. Infra-estrutura fora das unidades é reivindicada pelo professor. Para ele, sem esse apoio aos adolescentes fora da fundação, fica difícil manter todos por perto. “É difícil continuar”, admite, “mas tenho aqui do meu lado, agora, o primeiro campeão do torneio – dois anos atrás.” E muito bacana nessa história é que Sandro é da periferia, de família humilde, tem que ralar para manter a sua, mas arrumou tempo para contribuir.
