Caro Paulo,
Desde pequeno quando eu visitava a casa dos colonos na fazenda lá em Minas eu me irritava quando eles diziam: “É pobre, mas é limpinho”.
Eu não via pobreza, mas beleza, e ficava encantado com o lugar deles: as paredes de pau-a-pique caiadas, o chão de terra batida bem varrido, a cristaleira com fotos de parentes falecidos ou dos filhos que estudavam na cidade; um lugar de destaque com o santo de devoção em cima de uma toalhinha de crochê e do lado um copo d´água com flor fresca dentro; chaleira de água no fogão a lenha; e sempre uma acolhida calorosa com alguma quitanda (lá em Minas, quitandas são biscoitos, broas, roscas, pão de queijo, tudo feito em casa), goiabada com queijo e um café fresco, fraco e superdoce que a gente tomava sentado em bancos feitos à mão, cuja madeira o tempo tornou antiga e sedosa.
Quanto mais eu crescia mais eu gostava da casa deles e melhor entendia a razão do meu encanto: era tudo verdade, cheio de trabalho e significado! Bastava um olhar em volta para saber quem vivia ali e no que acreditava. Isso era belo e eu achava que eles eram felizes.
Hoje visito casas de pessoas que não são pobres e na maioria delas não vejo beleza nem felicidade. São lugares cheios de móveis, quadros, tapetes, mas vazios de significado.
Esses não pobres podem muito bem ser aqueles colonos que enriqueceram e foram mudando o seu jeito de viver libertando-se da pobreza, cuja única virtude valorizada era a limpeza.
Não faço elogio à pobreza, ainda que eu valorize o desapego como condição para uma boa relação com esse mundo tão frágil e precário. Mas foi na casa de gente pobre que eu encontrei os lugares mais ricos de significado e aconchego.
Como se o dinheiro justo nos fizesse ficar mais próximos do essencial e significativo, não permitindo que se gastem tempo e espaço com o que é periférico e dispensável para ser feliz nessa vida.
Acho que foram essas experiências que me fizeram colocar como uma das minhas metas pessoais e um dos princípios de educação de meus filhos o “sentir-se em casa em qualquer lugar do mundo”.
Por isso, logo moleque, coloquei o pé na estrada e fiz o mesmo com Tiago, Silvia, Helena e Pedro, com o indispensável suporte da Lili, que é uma que tem roda nos pés.
Foi assim que descobri que quando nos sentimos íntimos da vida vemos em todo lugar algo de familiar. Nós aprendemos que as diferenças são superficiais e que no fundo somos todos humanos vivendo os mesmos desafios, não importa a história, a origem, o dinheiro ou o endereço de cada um.
Phil Cousineau, no seu A Arte da Peregrinação, da editora Ágora, conta que, na tradição irlandesa, quando alguém parte é costume dizer: “Possam as estrelas iluminar seu caminho e você encontrar a estrada interior. Avante!”.
Eu acredito que, depois que percorremos essa estrada e voltamos para o nosso lugar, a arquitetura e a decoração de nossas casas ganham aquele encanto que eu experimentava quando criança nas minhas visitas aos colonos.
A gente passa a ser mais criterioso com os materiais, os objetos e os ritos que animam nossa casa. E não é por acaso que eu disse animam. De fato, a casa ganha anima, alma que deixa todo mundo que entra nela com a sensação de que está chegando num lugar acolhedor, seu, e que por isso se sente em casa mesmo não morando lá.
Na verdade, nossa casa nada mais é do que limites que colocamos entre nós e o mundo apenas para nos garantir um pouco da solidão e do sossego necessários à nossa paz e àquela cada vez mais rara privacidade que estamos nos acostumando a não ter.
Melhor então é entender logo que a nossa casa é esse mundo de chão de terra e teto de céu, um lugar de verdade, cheio de beleza e significado.
Fico por aqui porque tenho que fazer as malas para pegar a estrada mais uma vez. Agora o destino é China, com direito a Tibet.
Na volta eu conto o que aprendi.
O abraço do amigo,
Ricardo.
*Ricardo Guimarães, 56, é presidente da Thymus. Seu e-mail é rguimaraes@trip.com.br
