Esta edição da Trip é sobre diversidade e eu vou pedir uma intervenção militar. E por que não? A diversidade não existe justamente para que coisas diferentes convivam e possam ser conectadas?
Comecei a pensar nisso no meio do ano, quando vi que o Brasil estava sendo visitado por uma série de personalidades norte-americanas com segundas intenções, daquelas boas, boníssimas, que geralmente asfaltam o caminho do inferno. Dos cações gentis do Google, Larry Page e Sergei Brin, ao lobo em pele de cordeiro do New York Times, Thomas Friedman, muita gente importante veio elogiar o nosso Programa do Álcool. É, o Programa do Álcool. Aquele. Não algum projeto social novo, algum Bolsa-Bebida que o presidente Lula tivesse criado num momento de sinceridade reflexiva. Não. O objeto do súbito interesse internacional é o programa requentado de biocombustível que o Governo Militar criou na década de 1970.
Por razões financeiras e ideológicas, certos personagens da elite americana passaram a ver na garapa destilada um substituto urgente para aquele óleo escuro, sujo e explosivo que vem da terra daquela gente escura, suja e explosiva. Essa visão pode parecer razoável para alguns. Para mim está longe de ser. Claro que prefiro carros rodando a etanol, produzindo menos monóxido e dióxido de carbono. E claro que acho que seu uso deve ser incentivado. Mas que seja através de um ganho de produtividade e não de um aumento impensado da área de plantação. Não bastasse a pressão pela produção de alimentos, para uma população mundial que deve dobrar em 50 anos, a Terra ainda vai ter que aturar a corrida desenfreada por um novo ouro negro, agora verde? Num processo como esse, a biodiversidade amazônica tem tudo para se tornar a vítima fatal.
É simples assim. Se os fazendeiros já destroem vastas áreas de um patrimônio biológico irrecuperável para colocar lá meia dúzia de vacas pingadas, o que acontecerá se a cana-de-açúcar for transformada numa commodity tão valiosa?
A Amazônia precisa de uma proteção militar mais ampla. Alguns habitués desta coluna podem estranhar minha veemência repentina, mas é melhor entregar a floresta aos cuidados dos nossos militares do que entregá-la ao fogo. É sim uma questão de guerra. A da sobrevivência do planeta. Acreditar que o Ibama, com menos de 200 fiscais, vá conseguir defender a nossa parte é de uma ingenuidade muito perigosa. Se o Brasil não tomar alguma atitude drástica, alguém vai tomar. O controle da devastação é algo para o qual as Forças Armadas estão amplamente habilitadas. É uma atividade campal, muito diferente da intervenção em áreas de alta densidade humana. No fundo, nem sou eu quem está pedindo esta ação emergencial. São os dados. Nos últimos 20 anos, 635 mil m2 de mata, uma área equivalente à França e Espanha, desapareceram. Só no ano passado foram mais 13 mil m2.
A devastação pode até estar um pouco mais lenta, mas está longe de cessar. E, hoje, até um xaxim sabe que a situação global pede ações mais incisivas que há 20 anos. A Amazônia é fundamental para a biodiversidade e o equilíbrio climático. Não há mais tempo para meias medidas ou vergonhas dogmáticas.
DIRETO, VOLVER!
A presença militar seria só uma primeira etapa. A segunda deveria ser um grande esforço diplomático. Para trocar preservação por dinheiro. Também é simples assim. Os serviços ambientais gerados pela biodiversidade mundial não têm preço, mas eles foram estimados em 33 trilhões de dólares anuais por um estudo recente. O Brasil, que tem quase 20% das espécies existentes, precisa tirar parte desse dinheiro da virtualidade. E pode. O país teria como aliado, nas esferas de poder do Primeiro Mundo, os cada vez mais influentes grupos ambientalistas. Felizmente, a consciência ecológica está crescendo na mesma proporção que a destruição. Até as elites econômicas já começam a ter uma idéia mais clara e urgente de quanto vale o futuro do planeta.
E a terceira etapa seria a de transformar a Amazônia em um grande centro de pesquisa e produção de biotecnologia. O país já têm grandes empresas nessa área, como a Natura e a Aché. Não precisaríamos nem sair do zero, como nos anos 1950, quando justamente uma parceria entre a sociedade civil e as Forças Armadas criou o ITA, um instituto de tecnologia que forma centenas de engenheiros de classe internacional. E do ITA nasceu a Embraer, terceira maior fabricante de aviões do mundo. Então é isso: se o Brasil conseguiu transformar São José dos Campos num dos principais centros de tecnologia do planeta, o que estamos esperando para fazer de Manaus ou Belém as capitais da biodiversidade?
*Carlos Nader, 41, ainda resiste nas trincheiras do bom senso. Seu e-mail é: carlos_nader@hotmail.com