Há dez dias, estive entrevistando o senador e pré-candidato à presidência da República Eduardo Suplicy. Duas horas depois, deixei sua casa na Rua Grécia com a firme sensação de que nem tudo está perdido na cena política brasileira. Reproduzo abaixo algumas das minhas impressões e um pequeno trecho da entrevista que estará na revista Tpm, que sai no fim desta semana:
Eduardo está em boa forma. É bonito, está solteiro, teve um casamento que durou 36 anos, gerou três filhos e espera o primeiro neto. É o senador mais querido do País e, agora, prepara-se para disputar a presidência do Brasil.
Tem, antes, de vencer Lula nas prévias do Partido dos Trabalhadores, que acontecem em março do ano que vem. Está confiante.
Mas Suplicy é muito mais que isso. É um homem. Uma pessoa de 60 anos que conseguiu manter-se ereto, digno e inquestionavelmente íntegro, mesmo passando a maior parte de sua vida num ambiente que não é exatamente conhecido pela limpeza, a política. Mais ainda, Eduardo olha nos olhos das pessoas. Não se envergonha ao demonstrar seus sentimentos. Parece ter entendido que a imperfeição é a verdadeira condição humana. Não tenta, por isso, escondê-la. Ao contrário. Convive com ela e a transforma em seu principal ativo.
Sua casa, onde aconteceu a entrevista que você lê a seguir, diz muito sobre o dono. Tem cara de casa vivida. Os livros, as fotografias, as plantas do jardim, a cor dos tapetes. Nenhum decorador passou por ali. O tempo e as emoções das cinco existências que lá conviveram, sem contar todos os outros que estiveram por perto, se encarregaram de formar as camadas de vida que compõem o ambiente. O imóvel está à venda. Talvez uma demonstração clara de que um ciclo está se encerrando. E outro começando. A maneira como se expressa, olhando de verdade, refletindo sobre o que dirá em vez de disparar toscos rascunhos verbais movidos a ansiedade, é interpretada pelos tolos como defeito – como se o mundo devesse ser habitado por eloqüentes locutores de FM.
Enquanto Paulo Maluf negava com toda a eloqüência as várias acusações que pesam sobre ele em depoimentos à polícia, Eduardo confessava publicamente sua dor pela perda da mulher que amava. Quem disse que todos os políticos são iguais?
Dor
Tpm – Uma coisa que fez muita gente se interessar por você nos últimos tempos foi essa demonstração de sensibilidade e de falibilidade que você deu durante o episódio da sua separação. Por quê?
Eduardo Suplicy – Minha separação realmente foi uma situação muito difícil, porque precisei refletir em profundidade sobre as razões que me levaram a perder uma pessoa que era a mais preciosa na minha vida e da qual nunca tinha planejado me separar. Se isso ocorreu, foi em decorrência de algumas falhas minhas. Quando a Marta me transmitiu que queria se separar, eu conversei com meus filhos. Fiquei pensando, afinal, o que eu poderia fazer.
Tpm – A que conclusão você chegou?
Suplicy – Fiquei pensando que, talvez, eu pudesse ser um pouco diferente. Podia aprender a fazer coisas que eu não sabia. Mas os três filhos então disseram: ‘Não, pai. Seja do jeito que você é, nós gostamos assim…’ (Fica muito emocionado, a voz embargada e os olhos marejados. Interrompe por alguns segundos a entrevista).
Tpm – O que você pensou em fazer de diferente?
Suplicy – Quem sabe eu vou aprender a tocar piano, quem sabe eu vou… Dei diversos exemplos e eles falaram ‘não, não, não é isso que vai adiantar’. Então procurei compreender. Meu desejo é que a Marta seja muito feliz, porque gosto dela. Então, embora seja difícil a separação, achei que a melhor forma era simplesmente respeitar o caminho dela e pronto…