Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Já registrei aqui minha opinião sobre esse papo vigente nos últimos meses, quando ‘resolveram’ alçar Silvio Santos à condição de gênio. Uma espécie de Simon Bolívar que teria vindo num baú alado, para nos salvar do jugo do monstro, que não é Kiko, mas é Marinho.
Essa tese do self made man, que com um dom quase mediúnico para entender e traduzir os anseios da camada pobre da população, cai por terra em segundos, diante de qualquer pesquisa que dure mais de cinco minutos e cuja única fonte não seja a biografia autorizada, escrita por seu mano Arlindo Silva.
Não quero me aprofundar nesse assunto, mas basta colocar a sonda uns milímetros mais para dentro e o que aparece são várias loterias e pecúlios de tipo questionável (e que tem sido, aliás, questionadas pela justiça), sustentando a emissora que as vende, aproveitando-se do pouco discernimento de quem está do outro lado. Assim, empregadas domésticas, pedreiros, balconistas, vendedores, donas de casa e outros milhares de brasileiros honestos, trabalhadores e incautos, dão uma espécie de dízimo ao nosso gênio, há décadas, na ilusão de ganharem um milhão, uma casa ou maravilhosas mercadorias do Baú no final do ano.
Nem é preciso evocar a lei, que reza que os agraciados com as concessões federais de televisões e rádios têm de apontar foco para a educação do povo.
Mesmo ignorando a lei, como por sinal faz o sistema nesse caso, e tratando Silvio como personagem do folclore televisivo nacional, uma espécie de Saci Pererê ou Mula sem Cabeça da telinha, seria pedir demais que, com todo o dinheiro que acumulou, na qualidade de banqueiro, dono de dezenas de empreendimentos alavancados por esse presente público que lhe caiu no colo, parasse de falar ‘pra mim fazer’?
Repare que não estamos pedindo muito. Não se trata de rogar por algum programa que não trate o espectador como um acéfalo. O que de resto teríamos de pedir também à Globo e aos outros concessionários dos demais canais.
Apenas que, até onde sei, os outros proprietários de emissoras não são vistos todo domingo na tela disparando ‘Syang, chega para cá que não está dando pra mim ver…’ , ‘Lombardi, repita os prêmios pra mim fazer o sorteio…’ . Por favor, seu Silvio… Quem sabe trocar o Lombardi pelo professor Pasquale…?
Falar com Deus
Um amplificador de som de telefone seria bem vindo também. Seria surdez, como o próprio Silvio alega às vezes, ou mais uma técnica do implacável camelô, para alargar os índices de sua audiência? É incrível como Cláudias viram Eulálias, Jeffersons se transformam em Washingtons, Petrópolis em Pelotas e Varginha em sabe Deus o quê…, quando o ‘mago’ Abravanel se põe a atender o telefone na tevê.
Em geral, o povo não liga. Emocionado, como se estivesse num interurbano com Jesus Cristo, o telespectador entra em transe, chora, pede beijos, envia abraços e agradece a Deus pela graça conseguida, depois de tantos anos de fé cega, depositando seu dinheiro na conta do iluminado apresentador e concessionário federal.
Talvez não seja o caso de Rubens Ewald Filho, o eterno especialista em Hollywood. Mas domingo passado, na noite mais importante do ano para ele, a do Oscar, na língua de Silvio Santos, Ewald, de smoking e tudo, virou Edevaldo. Ninguém reclamou.
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A ressurreição de Grilo
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu