Você é
daqueles que se preocupam com o aquecimento global? Com o degelo da
calota polar? Com o nível dos mares que vai subindo aos poucos
e engolindo uma prainha aqui, outra ali? Com a camada de ozônio
que está cada vez mais tênue sobre nossas cabeças?
Bem, pelo andar da
carruagem, as coisas podem piorar. Aliás a tendência,
sempre que uma situação está ruim, é a de
que ela piore ainda mais. É uma visão pessimista, mas
fazer o quê? Sou pessimista mesmo, quando se trata do
futuro da humanidade.
Olha só. Acabei
de ler uma notícia que me deixou abismado. Boquiaberto.
É sobre um estudo da Food and Agriculture Organization of the
United Nations. Um calhamaço que se chama “Livestock’s
Long Shadow”, que se for traduzido literalmente vai querer
dizer alguma coisa como “A Sombra Comprida do Gado”. E está
lá escrito, com todas as letras, preto no branco, o seguinte:
neste momento, em nosso planeta que tanto nos preocupa e nos
aflige, existem 1,5 bilhão de
cabeças de gado, para consumo, pastando. Juntemos a isso mais
1,7 bilhão de cabras e cordeiros. Sem esquecer, é
claro, dos porcos e das galinhas que ninguém das Nações
Unidas conseguiu, até o fechamento do relatório,
terminar de contar. Bem. Esse pessoal todo, o gado, precisa de 30% da
superfície da terra para ser criado.
Até aí,
fazer o que, não? Acontece que tem um detalhe da série
seria-engraçado-se-não-fosse-patético: todo esse
gado consome mais alimento do que a que eles mesmo nos proporcionam.
Agora a parte mais patética, que de tão patética
vira piada: o gado do mundo inteiro é responsável
por 18% do aquecimento global. De-zoi-to-por-cen-to. Dezoito. E sabe
como acontece isso? Por causa do metano emitido pela digestão
dos alimentos consumidos e por causa, também, atenção,
do nitrogênio que se desprende dos excrementos depositados. Sem
piada, sem trocadilho. As vacas arrotam e cagam e quem fica na merda
é o ser humano. Essa sim é uma verdade inconveniente
(ou uma maneira inconveniente de falar a verdade?). No Brasil, o
conjunto do rebanho bovino, caprino, suíno e companhia é
o segundo emissor de gases, atrás apenas das queimadas, na
lista dos responsáveis pelo aquecimento global. O gado lá,
pastando, e nós aqui, na grande cidade, apanhando.
Devo dizer que não
sou ecologista, nem vegetariano. Não sou da UDR nem do MST.
Sou apenas alguém que está estarrecido com o paradoxo
em que está se convertendo a existência do ser humano.
Ou mexe na dieta dos quadrúpedes (então tá) ou
os excrementos deles têm de ser reaproveitados de maneira que a
criação do gado se torne uma atividade sustentável.
Em algum lugar, alguém deve estar estudando alguma maneira de
tornar a bosta de vaca rentável. Tomara que descubra logo como
isso pode se tornar viável, porque enquanto esse pequeno
milagre não acontece, continuaremos escorregando (literalmente
e com o perdão da palavra) na merda.
