É quase impossível encontrar um surfista, em atividade nos anos 70 e início dos 80, que não tenha tido uma prancha com o consagrado raio da Lightning Bolt. Símbolo das tempestades que trazem ondas, surfar com o raio sob os pés era status garantido dentro d´água.
O que acredito nem mesmo meus amigos Zezinho e Thyola, titulares da marca no Brasil para confecção e pranchas há cerca de 20 anos,
sabiam é que a fonte de inspiração do logo foi o ‘Z’ do Zorro, ídolo de infância de Gerry Lopez, o criador do raio e fundador da Lightning Bolt.
Lopez é nome obrigatório em qualquer lista dos maiores surfistas de todos os tempos, seja ela de 20, 10 ou três nomes. Crédito grafado nas paredes de Pipeline numa época em que a onda havaiana era considerada a mais perigosa do planeta. Época também de pouco crowd, de revolução no desenho das pranchas, de explorações e descobertas.
Bicampeão do Pipe Masters em 72/73, ele reinou absoluto durante anos na mais plástica onda havaiana. Mas, apesar dos resultados, competir nunca foi seu foco, e logo se tornou o precursor do free surfer profissional.
Sua casa bem em frente às cilíndricas esquerdas contribuiu para o desenvolvimento da técnica e do estilo que o fazem, de longe, o surfista com mais horas deslizando dentro dos tubos de Pipeline. Era comum entre os assistentes, na areia ou nas sessões de filmes, a pergunta ‘Será que ele vai sair?’, e, de repente, lá vinha ele impecável completando mais um tubo que parecia impossível.
Mas logo a invasão de californianos e australianos na ‘sua onda’ acelerou um processo que, quem o conhece diria, era inevitável. Soma-se a isso o interesse por outros esportes, atividades e um especial espírito explorador, e a casa no North Shore de Oahu ficou só para ocasiões, leia-se ondas, muito especiais.
Partiu para viagens exóticas no Taiti, Fiji, Bali, descobriu ondas como a de Gradjagan e, através da divulgação das imagens nesses lugares,
deixou surfistas de todo o mundo alucinados com a possibilidade de voltar ao surfe de origem, com poucos amigos dividindo o pico.
Talvez tenha sido a partir dessas filmagens que Lopez despertou outro interesse, o cinema. Participou de filmes como no North Shore e Big Wednesday, de John Milius, mas foi com Farewell to the King, no qual contracenou com Nick Nolte, e, principalmente no popular Conan, o Bárbaro, ao lado de Arnold Schwarzenegger, que seu trabalho em Hollywood se tornou conhecido.
Nessa época já havia estabelecido residência em Maui, descoberto o
windsurfe e o motocross. Quando tinha onda, surfava; quando tinha vento, velejava; e quando não tinha nada, praticava enduro. Para compor com atividades tão dinâmicas descobriu o ioga. A princípio, ele foi para o exercício seduzido pela beleza de algumas colegas de faculdade, mas há anos o ioga se tornou uma paixão que pratica duas vezes por dia.
O windsurfe aproximou Lopez da onda de Jaws, vizinha a Hookipa, tradicional point de surfe a vela no Havaí. Ele o aproximou também de Laird Hamilton e sua turma, e juntos foram pioneiros no tow-in, o surfe com auxílio do jet ski.
Casado com Toni e pai de Alex, 12, na permanente busca do equilíbrio e de novas aventuras mudou-se para a montanha. Há anos vive a maior parte do tempo em Bend, cidadezinha de 50 mil habitantes no Oregon, EUA, onde costuma ver o sol nascer na montanha Bachelor fazendo ioga, sempre seguido por longas sessões de snowboard.
Com cerca de 50 anos, Mr. Pipe diz que vive o momento sem se preocupar com o futuro ou o passado, e que não possui expectativas em relação a nada, pois a expectativa é irmã da frustração.
NOTAS
ESQUI NA NEVE
Na próxima semana Valle Nevado, Chile, recebe os melhores esquiadores sul-americanos para a 17ª Edição do Campeonato Brasileiro. A prova inclui as modalidades Super G e Slalom Gigante e conta pontos para o ranking mundial (FIS).
WQS
Pelo terceiro ano consecutivo o Brasil faz o pódio na tradicional etapa seis estrelas de Durban, África do Sul. O surfista da Praia Grande Beto Fernandez ficou com o título e saltou da 59ª para a oitava posição no ranking de acesso. No feminino a catarinense Jacqueline Silva foi vice-campeã.
WCT
Já na divisão principal o ‘time brasileiro’ vai mal. Nenhum atleta passou na primeira fase da etapa de Jeffrey´s Bay, África do Sul, e hoje todos disputam a repescagem.