Tido como o mais importante documentarista vivo, o norte-americano Frederick Wiseman, 71, esteve no Brasil em março participando do É Tudo Verdade – 6ª edição do mais importante festival latino-americano de documentários, realizado em São Paulo e no Rio de Janeiro -, que apresentou uma retrospectiva da sua obra com oito de seus principais filmes.
Na maioria dos seus documentários, Wiseman aponta a câmera para as grandes instituições americanas: hospitais, academias militares, escolas, tribunais de justiça, departamentos de polícia, centros de pesquisa científica e o sistema de seguridade social – estabelecimentos que definem os Estados Unidos como um país burocrata e corrupto. Sem fazer perguntas, sem iluminação especial – e sempre sem roteiro, para não interferir na ação -, ele mostra seu ponto de vista através da montagem. Depois de seis a oito semanas filmando, esse advogado formado na Universidade de Yale volta para casa em Cambridge (subúrbio de Boston) para mais oito meses de trabalho de edição. O resultado, para citar outro grande documentarista, o brasileiro João Salles, é o cinema mais político que os Estados Unidos jamais produziram.
Muito assediado pela imprensa, Wiseman conversou com a reportagem da TRIP durante 30 minutos. Revelou um extremo mau humor e admiração por Gustavo Kuerten e Charles Chaplin. Confira abaixo um pouco dos pensamentos do melhor e mais corajoso observador do lado sinistro da sociedade contemporânea.
TRIP O senhor assistiu aos documentários brasileiros Notícias de uma Guerra Particular, do João Salles, e O Rap do Pequeno Príncipe, do Marcelo Luna e Paulo Caldas? E ao curta Uma História de Futebol, do Paulo Machline, que concorreu ao Oscar desse ano?
Wiseman Não falo sobre o trabalho de outros profissionais. O que posso dizer é que o João Salles é um ótimo documentarista. Quanto ao outros filmes, não os vi. E nunca assisti a um Oscar.
TRIP Li uma entrevista onde o senhor falava que fazer um documentário é um esporte e que é preciso estar em forma para filmar. Como é isso? O senhor. pratica algum esporte?
Wiseman É preciso estar em forma, porque você tem que correr para todos os lados, carregando equipamentos pesados o dia todo. Por isso pratico tênis, ski e faço caminhadas diariamente…
TRIP Como é a relação do senhor com as pessoas filmadas? A impressão que se tem dos seus filmes é a de que elas não se importam nem um pouco com a câmera.
Wiseman Na hora em que ligo a câmera, as pessoas parecem não se importar com a presença da minha equipe [Wiseman usa apenas três pessoas em suas filmagens, incluindo ele]. Não sei se isso é uma peculiaridade americana ou não. Meu princípio básico é o de que estou lá para fazer um filme, não novos amigos. Não crio intimidade com as pessoas, só tento ser amigável. Quando acabar de filmar sei que nunca mais verei a maioria dessas pessoas. Tento não ser frio e distante, mas não vejo interesse em tornar-me amigo das pessoas, porque isso daria a elas uma falsa sensação de intimidade.
[Moacyr Vieira Martins]