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Sem sal

Por Alê Youssef*

Com o arroz e feijão todo mundo concorda. Esses são os grandes desejos do conjunto de nossa sociedade. Acontece que não é só de arroz e feijão que nós gostamos de viver. As diferenças de visões de como tratar as outras questões da vida em sociedade geram os conflitos de interesse que rondam o dia a dia de uma metrópole. Brincando com uma figura de linguagem: é o tempero que gera a confusão. Há quem goste de um mais apimentado, de uma cidade cheia de cultura e modernidades. Há os que prefiram um molho neutro, quase imperceptível, que não gere emoções muito fortes. Um bom exemplo dessa discussão é Nova York que, entre os anos de 1994 e 2002, foi governada pelo pitoresco prefeito Rudolph Giuliani. Ele foi para aquela cidade uma espécie de rei da mediocridade.

Explico melhor para não gerar confusão: em sua gestão, através de seu elaborado plano de tolerância zero, ele conseguiu o que a maioria queria, ou seja, diminuiu drasticamente os números da criminalidade e ?limpou? a cidade da ?sujeira? acumulada ao longo de anos. Inegável o mérito, mas é necessário registrar que, para atingir esse sonho da maioria, Rudy pisou na cabeça de muita gente: deu liberdade total para a policia atuar nos bairros mais pobres da cidade, gerando uma série de ações suspeitas e exageradas; ignorou décadas de arte urbana pulsante e tratou esboços de Basquiat e as Bloc Parties de hip hop como lixo, apagando grafites e proibindo confraternizações públicas; diminuiu o tempo de funcionamento da mais incrível noite do planeta; e radicalizou no tratamento de mendigos e homens de rua.

Cidade dormitório

Nos trópicos, o exemplo de Giuliani está muito presente no estilo do atual prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, administrar a cidade. Apesar da Lei Cidade Limpa, que com certeza trará benefícios pra capital paulista e pode ser considerada uma ótima ação, o prefeito peca por não demonstrar nenhuma sensibilidade com tesouros da cidade como a arte urbana e a noite: apaga grafites, destruindo alguns patrimônios da cultura transgressora de São Paulo; e pega pesado na fiscalização de bares e clubes noturnos, tentando obrigar todos a se enquadrarem numa legislação famosa por criar dificuldades e vender facilidades. Nada se conversa, nada se discute. O que interessa é se a manchete do jornal agrada a tal maioria que detesta temperos. Talvez para esses a cidade que Kassab quer criar seja acolhedora, mas para muitos a mediocridade não serve e a agitação cultural não se resume a uma virada de noite repleta de shows. Está na hora de todos os que gostam de temperos fortes entrarem em campo para evitar outras ?giulianices? do nosso prefeito.

Aproveitando o sucesso da Parada Gay, que conseguiu se firmar quando se constatou seu impacto na economia da cidade, os representantes da cultura alternativa têm de se unir para mostrar economicamente sua relevância em São Paulo. O desafio é definir qual é o PIB da cultura alternativa para que a maioria conservadora entenda e respeite, através de números, a vocação festiva e cultural de São Paulo. Ou encaramos esse desafio, ou seremos obrigados a quebrar as paredes do bairro do Cambuci pra preservar na marra as maravilhosas obras dos Gêmeos – que o mundo reverencia, mas que por aqui estão sumindo das paredes.

*Alê Youssef, 32, é um dos fundadores do site www.overmundo.com.br, sócio do STUDIO SP e do Núcleo de Idéias Movimento.

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