O fato de que sacos de papel pardo estão entre as mais simples, funcionais e criativas embalagens criadas e as duas dezenas de e-mails de leitores de lugares diversos – como Goiânia, Brasília, Rio de Janeiro, além dos quatro cantos de São Paulo – levam a crer que um novo movimento de revolta popular se organiza em dimensão nacional. Depois do MST, vem aí o MSS, o ‘Movimento dos Sem Saco’, gente que não agüenta mais ser tratada como gado, vítima da insensibilidade, incompetência, imperícia e amadorismo de certos empresários, designers e industriais de segunda e terceira classe. Publico a seguir um extrato das melhores mensagens recebidas, pedindo perdão pela omissão das demais reclamações e cartas de vítimas que a limitação de espaço impede de trazer à luz. Com vocês, alguns digníssimos membros militantes do MSS:
‘Sou designer gráfico e moro em Goiânia. Realmente existem gênios (poucos) e idiotas (milhares) na profissão de designer, seja de embalagens, gráfico ou de produto. Mas por quê? O primeiro problema é a mentalidade dos empresários que não valorizam o profissional qualificado e preferem contratar (no caso do design gráfico) os conhecidos ‘micreiros’. Esse pessoal faz dois ou três cursos no Senac e sai por aí vendendo serviço de design a preço de banana… Resultado: aberrações visuais, clichês repetidos à exaustão e soluções inadequadas. O outro problema nas profissões da sutileza é o infame gosto pessoal. Ninguém se atreve a dar palpite sobre uma cirurgia que um neurologista tenha feito, mas qualquer esposa de dono de empresa se considera apta a opinar sobre o projeto de identidade visual da empresa apenas porque tem ‘bom gosto’. É por essas e outras sutilezas que, infelizmente, ainda vamos ser obrigados a conviver com os garrafões d’água…’ – Raphael Machado
‘Li sua coluna sobre a falta de criatividade nas embalagens e gostaria de falar sobre outro ponto: o desperdício. Conversando com meu namorado, descobri que existe um país (não me lembro o nome agora) onde não existe lixo. Como? É feita uma coleta seletiva do lixo. O lixeiro passa cada dia para recolher uma coisa. Segunda, vidro; quarta, plástico etc. E o lixo orgânico vira adubo. Lá, quando vamos ao supermercado, levamos a embalagem usada do produto. Garrafa pet sem retorno? Nem pensar. Já imaginou se isso acontecesse aqui? Gastaríamos muito menos! Aquelas embalagens de xampu muito bonitas mas que depois não servem para nada serviriam como desconto na compra de um xampu novo! Sim, porque tudo ficaria muito mais barato, e reduziríamos a zero a quantidade de lixo. O meio ambiente ia ficar feliz da vida com essa iniciativa. Tento separar o lixo, mas os lugares que fazem coleta seletiva são distantes, e eu não tenho carro. Por que as coletas não vão aos bairros? Obrigada.’ – Marcia P.
‘Olá, Paulo. Acrescento à sua lista as embalagens de alguns achocolatados e molhos de tomate com tampas do tipo ‘puxe pelo aro’. Chega de cortar as mãos naquelas malditas rebarbas. Tem uma que, a princípio, parecia um benefício à nossa segurança e tornou-se uma desgraça: o lacre inviolável (e não exageraram no termo) dos frascos de catchup e mostarda. Felizmente, alguns produtores perceberam a mancada e instituíram o lacre ‘abre-fácil’ (novamente acertaram no nome). Outra coisa bacana são as embalagens tipo ‘caixinha’ (tetrapak) com tampa: nada de leite derrubado na geladeira. E que tal se colocarem uma daquelas fitinhas para abrir embalagens de CD? Um abraço.’ — Sandro de Jesus