Num possível ato falho, que confunde o público e o privado, os deputados adoram chamar o Congresso Nacional de “casa”.
Quando eu penso nessa “casa”, oca simbólica da nação, o que me vem à cabeça é um dos últimos barracos que ela abrigou: o sambinha da deputada Ângela Guadagnin. Um sociólogo do futuro dirá que o remelexo da nossa representante terá sido um divisor de águas na consciência coletiva do país. Foi. Vestida de amarelo canarinho do tornozelo ao punho, ao som de 111 picaretas imaginárias, ela encarnou uma madrinha da bateria das nossas mazelas históricas. E o país do Carnaval, da Egüinha Pocotó, da Garrafa, assistiu pela primeira vez a uma dança pública realmente obscena.
Eu ainda vejo tudo com muita nitidez. Foi num desses telejornais do início da madrugada. Um passinho manhoso pra lá, um requebro indolente pra cá, e a saída apoteótica da bancada na direção do corredor da Câmara. Niemeyer por Niemeyer, a alegria alegórica da deputada transformou o Congresso num sambódromo sombrio, palco reverso da nossa incapacidade de acreditar em
valores definidos.
A imagem me perseguiu noite adentro, como se fora um pesadelo antierótico. Logo no início da manhã seguinte, eu liguei para o mecânico que estava me devendo o conserto do carro há uma semana. “Hoje à tarde sem falta”, ele disse pela sétima vez. “Tá bom”, respondi corrompido pelo cansaço, sabendo que fosse talvez mentira, talvez verdade. Mas, naquele instante, um anjo torto, desses que vivem à sombra dos políticos, me revelou a verdade: logo depois de desligar o telefone do lado de lá, o mecânico também sambou. E, dentro de mim, eu vi. Ele sambou, sim, sambinha maroto à moda da deputada, comemorando mais um episódio cotidiano da nossa impunidade coletiva.
EVERYBODY DANCE NOW
Aí, graças à deputada, eu matutei, paranóico e lúcido… E a operadora da operadora do meu celular? Os dedinhos dela tamborilam na mesa um sambinha escuso, enquanto espero na linha para tentar entender uma conta incompreensível e sobretaxada? E o diretor do meu banco? Os sapatos brilhosos dele sapateiam num ritmo sincopado, enquanto os lucros da empresa atingem patamares cada vez mais estratosféricos e eu espero na fila de um caixa que tem muito menos funcionários do que deveria? A pizza é nosso arroz com feijão. Não há saída para o Brasil, enquanto o país não se encarar num espelho que rejeite qualquer demagogia autocomplacente.
A imagem do rebolado legislativo não foi nenhuma exceção. Não foi uma caricatura chapliniana de um ditador solitário qualquer, que um acaso da história nos impôs. Ao contrário, o gesto malemolente de Ângela Guadagnin representa, e muito bem, o voto traidor de dezenas de outros deputados que não puniram seus colegas do mensalão. E a verdade ainda menos agradável é que esses deputados representam, e bem, o nosso voto. Ou seja, nos representam.
Então a deputada sambou por nós? E o Congresso Nacional, habitado por personagens de todos os tons, do Fernando Gabeira ao Enéas Carneiro, do Professor Luizinho à Heloisa Helena, constitui uma imagem semelhante ao país? Sim e não. Sim, por razões óbvias. As dezenas de parlamentares são uma amostragem legítima dos nossos arbítrios. E “não” por uma série de detalhes. Para dar apenas um exemplo óbvio: só o leque de ambições que alguém tem que ter para querer se candidatar já o diferencia da maioria da população que, em poucas palavras, só quer viver numa boa.
Quero deixar bem claro: não me alinho com este tipo tão freqüente de formador de opinião que crê que, com a honrosa exceção de si mesmo, o país onde vive é um amontoado de subseres cronicamente inviáveis. Ao contrário, tenho um caso de amor bem resolvido com o Brasil. E sei que a mesma matriz que gera o câncer da corrupção de valores gera também um ambiente flexível em que fundamentalismos ideológicos, étnicos ou religiosos têm mais dificuldade para vingar. Nosso desafio de nação é claro. Teremos que nos livrar da impunidade sem perder a transigência.
O Brasil pós-remelexo perdeu um pouco mais do escasso respeito que tem por si mesmo. E ficou mais desconfiado. É um processo complexo, dialético, em que causa e conseqüência se confundem. Afinal, são os deputados que agem como nós ou somos nós que agimos como os deputados?
Esse é o nosso ser ou não ser. E, para essa grande dúvida, eu só tenho uma certeza: para mudá-los, teremos que mudar-nos. Com cuidado e sem medo.
*Carlos Nader, 41, é o Baryshnikov da videoarte brasileira. Seu e-mail é carlos_nader@hotmail.com
