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Salve o hífen

POR RICARDO GUIMARÃES*

Caro Paulo,

Nos últimos três meses, foram assaltadas seis casas da minha rua, que é composta de não mais que cinco quarteirões. Todas da mesma maneira: seis horas da manhã, os empregados que estão chegando são rendidos e obrigados a colocar os assaltantes para dentro dos altos muros que separam a casa da rua. Ninguém vê, ninguém percebe, apesar de toda a segurança particular e do bairro. Alguns vizinhos acham que a solução é aumentar a segurança reforçando os dispositivos das casas, aumentando o número de guardas, levantando ainda mais os muros.

Eu não concordo. O problema da segurança não está nas casas, mas entre as casas. Como diz meu amigo Fábio quando quer chamar a atenção de seus executivos para alguma ineficiência da organização que dirige, “o problema não está nas áreas, está entre as áreas”. Cada área se diz totalmente competente, mas o todo não funciona para ninguém porque falta integração.

“Entre as áreas” é um espaço comum que não pertence a ninguém. Não existe um diretor nem um gerente de “entre áreas”. No entanto, é aí que reside a possibilidade da integração das áreas que vai determinar a saúde e a vitalidade da organização e a satisfação de todos.

Nossos bairros estão doentes porque demos as costas para o entre as casas: a rua. Isolados do mundo, dentro de casa, por trás dos altos muros, achamos que estamos seguros, mas na verdade deixamos aquela área comum aos cuidados de ninguém ou dos seguranças – o que, na maioria das vezes, dá no mesmo. (Não conheço nenhuma história de segurança que evitou um assalto a uma casa. Você conhece?)

Na nossa mentalidade individualista, materialista e independente, o espaço comum, a rua, não pertence a ninguém. Por isso é ocupada pelo ladrão. O problema pode ser enunciado assim: quem não ocupa desocupa; quem não cuida descuida. (E não adianta dizer que é o governo que devia cuidar, porque isso só identifica um responsável incompetente e não resolve o problema.)

A solução é assumir que aquilo que é comum é de todos, e não de ninguém. E que isso nos une e nos integra, não deixando espaço para que o mal se instale.

Lembro da “teoria do hífen”, do teólogo Martin Buber, que dizia que o hífen é o que está “entre”. É o espaço onde reside Deus, o amor, a ligação entre um e outro que forma a comunidade integrada, saudável e segura. Com o hífen abandonado, resta a fragmentação do todo, o isolamento das partes e, conseqüentemente, o medo. O hífen é a rua, o espaço do encontro, do movimento na direção do outro.

Proponho que baixemos os muros até o ponto que dê para ver a rua e o vizinho. Assim, um cuida do outro e todos do que é comum. Quem sabe, com muros mais baixos, a gente veja o ladrão antes de ele invadir nossa casa ou até mesmo antes de ele ter alguma razão para virar ladrão.

Sei que não estou falando nada de novo, mas é o que acredito que é o certo e que está sendo esquecido quando buscamos solução para a segurança de nossas casas. A resposta não está no reforço do isolamento, mas na integração. Diante da realidade dos fatos, isso pode parecer uma utopia absurda. Mas eu prefiro, ou melhor, eu preciso dessa utopia para não pegar meu boné e ir embora deste planeta.

Viva o hífen.

Ricardo

*Ricardo Guimarães, 59, é presidente da Thymus Branding. Seu e-mail é: rguimaraes@trip.com.br

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