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ROCK ESTOURA-PEITO

Que força estranha faz alguém são sair de casa para disputar o metro quadrado com outros 30 ou 40 mil macacos, exposto a chuva, canivetes, tumultos, lama, às vezes música da pior qualidade e ainda pagar mais de vinte e cinco dólares por isso?
Teses com razoável estôfo científico tentam responder explicando. Segundo elas, grandes concentrações de seres humanos (há controvérsias sobre quantidades) produzem reações de comportamento atípicas e de díficil explicação lógica. Ainda conforme estas teses, a partir de um certo número de pessoas reunidas num determinado local, ondas diferentes começam a ser produzidas, num verdadeiro ‘swell’ de emoções que raspam no descontrole. Quem já viu a galera entrando num estádio cheio, em dia de final de campeonato sabe que zeladores, contínuos, padeiros, publicitários, eletricistas e borracheiros se transformam por um lapso de tempo em gladiadores ferozes. Uma verdadeira horda de feras, fruto do mais puro cruzamento de Victor Mature e Rickson Gracie em dia de Vale Tudo.
As mesmas forças que liberam agressividade em doses às vezes incontroláveis, seriam responsáveis por determinadas reações químicas no cérebro dos indivíduos que, se percebendo parte menor de um todo amorfo, conseguiriam relaxar, se livrando por algum tempo de identidade, passado, história, família, emprego, contas, problemas e se tornando apenas um átomo, feliz pelo simples fato de inspirar e expirar. Os defensores desta tese argumentam que seria exatamente a absoluta impossibilidade de voltar a sentir estas reações exclusivas do total anonimato, que angustiam e deprimem as grandes celebridades.
Filosofias de almanaque de biotônico à parte, basta dar uma olhada no público de um bom show de música para perceber olhares relaxados, sorrisos de felicidade pura em virtude da liberdade do pensamento que corre solto pelos quatro cantos do estádio.
Conheço profissionais de criação que vão a shows e grandes eventos com o objetivo prático de ter idéias, que vem fácil graças às condições favoráveis.
Se tudo isso for verdade, teremos em São Paulo e Rio, mais um janeiro feliz.
Por mais que se possa fazer ressalva não dá pra negar o ecleticismo e a predominancia de bons artistas na escalação dos shows deste ano do Hollywood Rock.
Dos órfãos do Carbono 14 que terão Robert Smith e o Cure aos fãs do permanente de Plant & Page, todas as raças estarão atendidas por uma lista democrática que não esqueceu nem de uma noite de reggae e assemelhados. Quem quiser achar defeitos, sempre encontrará um jeito. As bandas de reggae internacionais por exemplo, Aswad e Steel Pulse, são ambas inglesas e os puristas poderão alegar falta de sangue jamaicano na área. Outros dirão que Black Croes antes de Page & Plant não combina ou que a batida do White Zombie não é a preparação ideal para The Cure.
Na verdade, quem tiver R$75,00 para gastar nos três dias de apresentação vai ver uma amostragem muito interessante da produção musical brasileira Chico Science numa ponta mostrando que é possível fazer som de qualidade no nordeste sem contar piadas, falar de sacanagem ou se atirar do palco. Ao contrário dos Raimundos, foge da fórmula fácil de meia dúzia de palavrões, duas guitarras pesadas e três piadas velhas. Não precisa cobrir o corpo de tatuagens para mostrar modernidade. Na outra ponta, o velho mestre Gil, convidando artistas consagrados como Fernanda Abreu e Lulu Santos.
Na ala gringa, mesmo quem não é fanático, não deve perder a oportunidade de relembrar as traquinagens dos anos 80 embalados pelo Cure. Os mais ‘cabeça’ tem Trip garantida pelo embalo progressivo de Page & Plant cujo som, mais elaborado que seus penteados renascentistas agrada muita gente. Na linha ‘sai de baixo’, os bons representantes do White Zombie. A raça do pop mela cueca vai vibrar com Urge Overkill (aquela banda que regravou Girl You’ll Be a Woman Soon de Neil Diamond, trilha de Pulp Fiction) e os MTVictims vão se lambuzar de Smashing Pumpkins.
Dr. Paulo, o marido de Dona Silvia nem sabe, mas sem querer tem colaborado com sua política anti-fumo para que cada vez mais tabaco-dólares sejam despejados na cena musical brasileira. Afinal, por mais que nossos cérebros viagem ao som de tantas bandas, a letargia não é suficiente (ou não deveria ser) para nos fazer esquecer que Hollywood Rock, Free Jazz e congeneres, não estão nem aí para reggae, jazz, rock, pesado ou progressivo. Nunca é demais lembrar o que norteia os organizadores e patrocinadores destes eventos: Você gosta do som desses caras? Acha-os interessantes? Bonitos? Quando se olha no espelho vê alguém mais feio que bater na mãe? Tá duro? Não tem problema, compra um maço na esquina, fuma um cigarrinho que você vai ficar ‘que nem que eles’.
Todas as bandas deveriam ser obrigadas a entoar no final de seus GIG’S, o rap-thrash: ‘O Ministério da Saúde adverte. Fumar é prejudicial à saúde’. Oh Yeah!

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