Há cerca de um mês escrevi comentando sobre o caso de uma garota recém-saída da prisão, prejudicada pelo preconceito. Dei o nome de “Desespero” ao texto. Sabia que aquilo tudo teria conseqüências, mas não sabia que tão imediatamente.
Havia encontrado Eliana na parte da manhã. Ela se queixara que a situação estava difícil. Não imaginei que fosse tanto. Disse-me que estava saindo em busca de soluções. Ingênuo, achei que era aquilo mesmo o que tinha a fazer; correr atrás. Eram cerca de 18 horas quando o telefone tocou. Era o chefe da segurança de um hipermercado recém-inaugurado, aqui próximo ao bairro. Perguntou-me, com entonação formal na voz, se eu conhecia Eliana. Claro, afirmei que ela morava aqui perto de casa e era nossa amiga. “Pois é”, disse-me ele, “ela foi apanhada roubando algumas mercadorias aqui no mercado. Deu o número de seu telefone para que o procurássemos. Segundo ela, o senhor é a única pessoa que poderia ajudá-la.” Ainda não havia me refeito do choque para dizer alguma coisa, quando ele emendou perguntando se eu poderia ir lá. Já sabiam do passado dela, inclusive que seu processo ainda está em aberto.
Senti que o homem, apesar de seco e direto, queria amenizar. Havia algo de compaixão em sua voz. Respondi que estaria lá em poucos minutos. Já fui saindo de casa sem trocar de roupa nem nada, pegando a primeira perua que passou na direção do hipermercado. A van parou em todos os semáforos que havia de casa até lá. No meio do caminho, o celular tocou. Era o homem da segurança do mercado novamente. Dizia que junto com ela havia vários produtos roubados de outro supermercado. Ele havia telefonado, como era obrigação dele. O pessoal da segurança do outro mercado estava vindo. Pegariam as mercadorias e iriam com eles levar Eliana à delegacia, para fazer a prisão de flagrante delito. Eu tinha que chegar antes deles senão não haveria como livrar a garota da prisão.
Desci da van correndo. Aproximei-me do primeiro segurança da loja que vi. Ele indicou Aleixo, o chefe da segurança. O homem me esperava do lado de fora da sala. Queria conversar a sós. Eliana havia sido vista pela câmera, enquanto colocava produtos dentro da bolsa. Quando pega, não tinha dinheiro para pagar. Ela havia estragado embalagens para tirar sensores que a denunciariam à saída. Era quase tudo comestível. Ela contou que era ex-presidiária e que estava passando fome. Ele, que fora criado em favela e conhecera a fome na infância, estava decidido a liberá-la. Claro, se eu pagasse a mercadoria danificada. Havia ainda o problema do outro mercado. Mas eram rivais e não ganhavam para prender ninguém para eles.
Quando saímos para pagar no caixa, percebi o esquema montado. Estavam preparados e armados para me enfrentar. Imaginaram que eu pudesse ser algum parceiro da garota e que pudesse vir resgatá-la. Paguei e já fui saindo, puxando a garota pela mão. Senti o círculo dos seguranças se abrindo, os homens de preto relaxavam. Na rua ela chorava agarrada a meu braço. Nem sabia como agradecer. Pedia que a perdoasse por me envolver naquele rolo. Não tinha mais ninguém a quem pudesse recorrer. Sabia que eu a ajudaria. Nem pegamos ônibus, ela queria andar e conversar.
Contou: não havia nada para comer em casa. Pegar no supermercado era a única solução. Mas parecia fácil, então exagerou. Se pegasse somente para matar a fome, teria dado certo. Quando cresceu o olho e quis pegar coisas que pudesse vender, foi vista. Sentiu-se presa novamente e o desespero fora insuportável. Passou por sua cabeça suicidar-se ao chegar à prisão. Percebeu toda sua miséria interior e decidira: Nunca mais faria aquilo. Sairia pedindo de porta em porta, mas nunca mais se sujeitaria àquela infelicidade.
Não podia dar conselhos. Mal consigo levar minha vida, como poderia me meter a dar conselhos para alguém? Conversamos. Ela vai fazer um curso de manicure, vou ajudá-la. Nem sei por que, confio nela. Acho que é porque confiaram em mim. Quando chegamos a sua casa, olhou-me nos olhos, agradeceu beijando meu rosto delicadamente e disse: “Deus te pague”. Sai dali pisando sem sentir o chão. Estava muito emocionado. Andando, imaginei a garota deitada no cimento frio de uma cela lotada. O quanto ia doer. Eu conseguira evitar com aquele meu pequeno gesto. Entrei só e sai com a moça. Senti que me tornei um homem respeitável, alguém que as pessoas confiam. Não há alegria maior do que ser capaz de fazer e satisfazer, de verdade, a necessidade do outro.
