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Recordações

Sentimentos frágeis, delicados como uma sombra, espalham-se pela nossa vida afora. No tesouro de nossas lembranças, garimpamos em busca das melhores vivências. E essas lembranças estão sempre relacionadas com as pessoas, já que são elas o meio único que temos de nos aproximarmos do ser único que somos. Pelas recordações, tomamos os acontecimentos de surpresa, sempre repensando-os e aprendendo com eles.


Tudo que outrora tivera um significado, posteriormente, trazido à tona, modifica-se. Nada será como fora. Tudo são vivências que se acumulam, dia após dia, produzindo sempre o novo, o diverso. Tudo o que se pensa, acrescenta e modifica, sempre.


Nossa vida é constituída de esforços. Nos tornamos aquilo pelo que lutamos. Somos gotas de suor ao sol ardente, sobre pele curtida. A somatória de todos os nossos erros e fracassos. Acertos e vitórias não duram, estão sempre no passado do instante seguinte. Transformam-se em recordações. Esse caldo existencial sobre o qual nos afogamos em nostalgia, sem pensar na sua importância fundamental.


A memória é a mais valiosa ferramenta que possuímos. Lembrar, selecionar lembranças ou trabalhar com elas por associação é o mais importante recurso que possuímos para lidar com o presente. Viver o melhor presente possível vai nos trazer as melhores recordações possíveis para o futuro. Existir bem é nos preservar para um bom futuro. Ter tudo o mais claro possível à mente é construir as lembranças mais resolvidas para o futuro.


Futuro não é outro mundo. É amanhã, o instante seguinte. Dessa linha para trás, já é passado. Dessa primeira letra para a frente, já é futuro. Presente é fluir no intemporal. É onde o que passou ainda não se transformou em passado e o futuro não se consumou. E esse é o nosso tempo verdadeiro. Tempo de estar sendo, em funcionamento. Somos movimento contínuo, energia a fluir. O passado está parado na memória; o futuro, na imaginação.


Vivemos com as mãos lambuzadas de passado, o passo apressado em busca de futuro, o coração pequeno e a cara suja de presente. Estamos sempre prontos a manter o conquistado, mesmo que a ferro e fogo. Mas, insaciáveis e insatisfeitos, vivemos a maior das contradições. Voltados para o futuro, ancorados no passado, e tendo o presente como única realidade palpável e intransferível, somos caos. Tem dia que a noite é assim mesmo e então vivemos manhãs de noites maldormidas, com os olhos em fogo. A vida parece oca, afogada em silêncios de mistérios insondáveis.


Então a solução, me parece, é recordar, organizar e planejar. Recordar que vivemos infindáveis momentos assim parecidos ou mesmo inteiramente diferentes. Como aqueles passaram, estes também passarão, porque, na verdade, já passaram. Pensá-los é carregar nosso disco, que não é rígido, diga-se de passagem, com lembranças. E, a partir dos dados obtidos e depois selecionados, efetuar análises, associações para a conclusão do que objetivamos.


Enfim, nossas recordações são os tesouros incalculáveis com que o tempo nos enriqueceu. Todo valor amoedado do mundo não vale e não é capaz de comprar um segundo de nossas lembranças. Tudo o que lembramos é matéria livre de sonhos. Jamais se poderia, nem pelas imaginações mais versáteis do mundo, pensar em comparar com memórias eletrônicas, ou ultra-eletrônicas. Em nós memória é verdade, limite em que a vida manifesta-se através da energia.


Recordar é mergulhar em vácuo, onde a matéria dos sonhos vence a luz e torna-se pensamento. Planar ao sol e construir o que ainda não é, encadeando-se ao delírio claro que se extrai da vida, numa curva plena de emoção.

 
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