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Reconexão

Algum tempo atrás conversava com Betho Borges, meu amigo paulista mais carioca que os próprios cariocas, sentindo sua verdade pessoal na sinceridade do que exprimia. Estava ele completamente desesperançado de todas as ideologias criadas pelo homem. Segundo ele, o homem havia quebrado todas as pernas possíveis e destruído o espaço à sua volta. Poluiu, destruiu, violou, matou, impermeabilizou, desregulou e o que mais?
Quis argumentar. Me faz mal esse modo seco e duro de ver a vida. E ele continuou em seu arrazoado afirmando que, se não bastasse destruir o ambiente, agora o homem queria destruir a si mesmo. A razão provara-se inimiga; não soubemos usá-la, senão para corromper, trair, explorar e tirar vantagens. Quando descobrimos algo importante, subvertemos a finalidade e transformamos em instrumento de poder ou máquina de ganhar dinheiro.

Esperei que fosse terminar sua argumentação com alguma conclusão pessimista ou beco sem saída. Claro que dava para argumentar em contrário. A razão está indissoluvelmente ligada à vida e a serviço dela. Não foi necessário. De repente ele surpreende. Não tenho amigos negativos. Acreditava em uma saída: individual. De nos voltarmos para dentro, estudar, buscar conhecer em profundo, melhorar no que somos, cada um fazendo sua parte. Reconectar, fazer o que lhe parece mais justo, correto e ajudar sempre que possível. Alinhar mente, espírito e corpo a partir de uma concentração em si. Segundo ele, cura não existe. Existe apenas melhoria e assimilação. Você melhora e isso influencia e exemplifica. Influenciar e exemplificar é toda a profundidade do conjunto de suas idéias com relação aos outros.

Concordei em parte. Para mim não há nada que tenha em si ser de uma certa maneira que não possa ser de outra. Existência é transcendência, ultrapassagem. Hoje, pensando naquela conversa, percebo que ficou uma pergunta no ar: “Mas e os outros?”. Aqueles que nem sequer têm noção dessa conexão, alienados de tudo o que passa além da rua, bairro e seu povo. Como seriam? Não conseguem compartilhar desse alinhamento, mas respiram, permanecem vivos e estão presentes. Influenciar e exemplificar seria suficiente? Chegaria até eles? Não creio. O buraco deve ser mais embaixo. Acredito que cada pessoa possui um tipo de potência, um poder, que encaixa no universo com perfeição. Único e irrecuperável; fecundo como respirar. Eles estarão à mercê do caos existente. Enquanto isso, as mentes conectadas que chegaram à brilhante conclusão do amigo paulista/carioca estarão se salvaguardando. Será que é isso? Ou sou estúpido e não entendi? Quem ficará por eles? As seitas religiosas que proliferam na periferia qual flores apodrecidas? O dono do tráfico do morro ou da favela? Quiçá, talvez o Estado?

Às vezes essa discussão torna-se cansativa e me enche de tédio. Vivo tentando me livrar dessa parte (inutilmente, diga-se de passagem) para me dar alegrias e compensações, tocando a vida, fazendo meu possível. Claro que esperando as conjunturas se alinharem em condições mais favoráveis para mais ser e fazer. São muitas as teorias, técnicas e explicações sobre o fato de que a mente atrai aquilo que produz.
É preciso reconectar, equilibrar e alcançar a serenidade e, assim, atrairemos o que há de melhor. Concordo e tento no que posso. Gostaria apenas que os outros fossem considerados, só isso. Tento criar meu processo existencial caminhando dentro dele, vestindo-o, tendo-o por dentro da minha pele. Sem técnicas; não as acredito. Não somos assim perceptíveis, capturáveis, quanto aparentamos. Acho que estamos além de tolas racionalizações. Assim, tateante, me atiro em vôo livre pela vida adentro, reconectado, em busca de sinceridade e transparência. Cuidado quem estiver embaixo.

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