Ícone do site Trip | Conteúdo que transforma

Realizações

Há alguns anos, li uma poesia que me impressionou deveras. De alguma forma, sua mensagem falou pôr dentro das duras paredes que me cercavam. A alma, larga, avançou como um raio de prata desabando do céu. Dizia que passávamos pelas ruas e não enxergávamos uma gota de orvalho que escorrega por uma folha de amoreira.

Queria dizer que vivíamos qual tivéssemos um tapa-olhos que nos impedisse de olhar para os lados. Sempre apressados olhando para frente, sem nos determos para contemplar nas possíveis belezas que podem estar ao lado. Deste modo perdemos grande parte de nossas vidas. Se tivéssemos observado aquela gota, perceberíamos que o sol, ao tocá-la delicadamente, dividia suas cores qual um diamante natural.


Aquilo me ensinou que devemos estar atentos a tudo que nos cerca. Mesmo se perdemos a maior parte do que acontece, pela limitação de nossos sentidos, ainda assim perceberíamos uma boa parcela. A riqueza e a motivação de nossas vidas tem tudo a ver com o tamanho de nossa percepção da existência interior e da que nos cerca.


Em tudo há belezas a serem descobertas. Nossa atenção e observação nos mostrarão. Qual a gota observada na folha, tudo tem algo de belo a ser colhido. Depende muito de nossa disposição de encontrar. As cores ganham uma energia jamais vista. Delicadas e intensas, as coisas se revestem de uma vitalidade inusitada. Tudo que parece grosseiro, medíocre, destituído de beleza, adquire uma nova sensibilidade. O olhar, agora atento e interior, transforma tudo. Dará a todas as coisas o complemento e a essência de beleza que faltava. E, assim, a vida será verdadeiramente agradável aos nossos sentidos, agora enriquecidos.


O que pode haver de belo ou de significativo a ser observado numa prisão, além de grades, muralhas, guardas armados e presos? Mesmo assim, é preciso procurar, para sobreviver à ignorância circundante. Às vezes até uma aranha pode ser bela em seu movimento existencial. Não existe somente a morte física. Há muitas mortes e algumas piores que a do corpo. Aquela da sensibilidade, por exemplo, que estupidifica e imbeciliza.


Em outra oportunidade, escutei uma historinha que, como a anterior, definiu-se como profunda lição de vida. Um mestre de Zen Budismo estava reunido com um de seus discípulos na sala de chá. O aluno perguntava, insistentemente, o que era Zen. O professor, silencioso, apanhou o bule de chá, cercado de todo ritual que consiste aquela atitude para o oriental. E, com a alma ali presente, serviu o afoito rapaz, na quantia exata que a tradição recomendava. Voltou com o bule o pôs sobre a mesa com enorme suavidade. Completado o ato, sentou-se qual houvesse respondido à pergunta tão insistentemente efetuada.


O discípulo continuou perguntando. O mestre guardou-se em seu silêncio de jade. Zen é perfeccionismo. Fazer o que tem que ser feito com o máximo de perfeição que se é capaz. Não importa o que. Varrer uma sala, por exemplo. É uma realização em si, varrê-la corretamente. Tudo tem um significado em si. Tudo deve ser feito, criado ou produzido com a alma toda envolvida no ato. É preciso dar o máximo de nós no que realizamos.


Este é o segredo de encontrar motivação de viver. Não existe uma motivação em especial, viver em si é o motivo. Todo ato, todo pensamento traz em si significado de existência daquele instante crucial. O ontem já passou, o amanhã acontecerá, com ou sem cada um de nós. O que existe de verdade é o agora, vibrante de oportunidades. Não é ainda realização. É satisfação. Há uma satisfação pessoal em fazer bem-feito, e nós precisamos dessas satisfações. São elas que preenchem nossas vidas de significado.


Tudo está em nossas mãos. É preciso apenas estar atento ao que nos cerca e buscar fazer tudo completamente envolvidos para que realizemos nossas existências.

Sair da versão mobile