Rafael Castro

O cantor, compositor e multi-instrumentista de Lençóis Paulista fala sobre humor na música, rock no interior, estereótipos, cabelo comprido e muito mais

por Luiz Filipe Tavares em

O Brasil é um país de milhões de técnicos de futebol e milhares de artistas independentes. Alguns muito mais talentosos e trabalhadores do que os outros. Esse é o caso de Rafael Castro, 26 anos, cantor, compositor, multi-instrumentista, produtor e um cara que em apenas seis anos tem uma produção digna de uma banda com muito mais anos de estrada. Com influências setentistas, letras debochadas e guitarras poderosas, produziu, gravou e distribuiu oito discos autorais gratuitamente na internet

Rafael começou a gravar seus discos em 2006, na cidade de Lençóis Paulista, a 280 km de São Paulo. No princípio ele gravou sozinho, sem banda e sem nenhum show seus quatro primeiros álbuns: Fazendo Tricot (2006), 40 dias em Hong Kong (2007), A Serenata do Capeta (2007) e Combustão Espontânea (2007). Isso mesmo: três deles no mesmo ano. Em 2008 montou sua banda, Os Monumentais e lançou Amor, Amor, Amor e Maldito.

Depois de uma passagem curta por São Paulo, em 2009, ele produziu mais dois discos, duas faces da mesma moeda: o altamente influenciado pela música regional Raiz e o enfurecido O Estatuto do Tabagista, mais sérios e bem formulados do que todos os antecessores. Agora, depois de um EP com covers de Roberto Carlos [RC canta RC, de 2011], Rafael voltou ao estúdio e produziu seu novo trabalho Lembra?, que deve sair este ano. O álbum será o primeiro a ganhar uma versão CD e traz menos humor e mais terror para quem já está familiarizado com o trabalho do compositor.

Batemos um bom papo por telefone com o guitarrista e falamos sobre humor na música, rock no interior, estereótipos, cabelo comprido e muito mais. 

Trip - Primeiro de tudo, como anda a vida em Lençóis Paulista?
Rafael Castro - Cara, em Lençóis Paulista tudo é sempre muito massa. Mas agora eu estou em São Paulo. Estamos fazendo a master do CD novo aqui, então estou em São Paulo por um tempo. Mas a vida em Lençóis é sempre maravilhosa [risos].

Você não pensa em mudar para São Paulo?
Bom, eu fico meio aqui e meio lá o tempo inteiro. É sempre 15 dias aqui e 15 dias lá. Mas eu fico bem a vontade lá por causa da casa dos meus pais, um lugar onde eu posso ficar, gravar e não pagar aluguel. Lá eu fico tranquilo.

O pessoal aqui na redação até brincou que, agora que você cortou o cabelo, está com mais cara de paulistano. Cortou o cabelo por causa disso, pra se enturmar melhor em São Paulo?
[Rindo] Eu não sei... Acho que na verdade eu perdi minha personalidade [gargalhadas]. Mas tá legal. As pessoas estão dizendo que eu estou mais bonito até... Ficou mais higiênico, isso sim. Mas eu não sei, nos shows parece que eu curtia mais com o cabelão. Me sentia meio que nem o Primo It, da Família Adams [risos]. Mas acho que antes o pessoal assimilava melhor o som. Agora, de cabelo curto, tem gente que não acredita muito no que eu estou fazendo. Mas a gente se adapta.

"A gente levava disquinho nos bares, tentava arrumar show e nunca conseguia. Isso tudo me deixou puto com essa história de indie rock"

Bom, pelo menos causou um impacto positivo, não?
Sim, pelo menos dentro da família [gargalhadas].

Consigo até imaginar sua mãe falando: “Cortou o cabelo! Agora tá bonito!”
[Risos] Exatamente. Rolou um: “que bom! Finalmente né?”. Todas as minhas tias acharam lindo. É um barato.

Tenho uma dúvida sobre uma música que tem a ver com o que falávamos. "Saudades do meu cabelo" saiu em 2008 mas no vídeo em que você estava cantando, estava de cabelo comprido. Que história é essa? Você sentia saudades de algo que não viveu ou evitava viver?
Em 2008 eu cortei o cabelo pela segunda ou terceira vez. Na época eu estava cabeludaço e a música surgiu em um desses cortes. Depois o cabelo cresceu de novo. É sempre um ciclo. Ela continua atual [risos]. Ela fala sobre essa coisa de como as pessoas veem as mudanças estéticas, o estranhamento que isso causa. Muita vezes as pessoas nem sabem mais quem você é. É uma brincadeira com o estereótipo das coisas. Parece que as pessoas se incomodam quando você muda, seja de ideia ou de corte de cabelo.

Tenho amigos do interior de SP que sempre dizem: "ser roqueiro em SP é fácil. Quero ver ser roqueiro aqui". Isso procede, ou agora com a internet é fácil ser roqueiro em qualquer lugar?
Na verdade é até um pouco difícil para eu fazer essa comparação. Eu já comecei na época da internet, então eu não sei precisar o quanto ela me ajudou. Então não sei bem. Será que a gente estaria produzindo disquinhos piratas nossos? Fitas K7? Como ia ser? Eu realmente não sei.

Bom, mudando de assunto, você é namorado da Tulipa Ruiz, que é uma cantora já cultuada nessa geração. Como é namorar com uma compositora? Já escreveram juntos?
É muito legal. A gente já escreveu alguma coisa juntos sim. A gente até quer gravar alguma coisa ano que vem, umas brincadeiras nossas. Mas é bem divertido. Dá pra dar bastante palpite no trabalho um do outro. É uma coisa que eu gosto muito de fazer com ela.

 

Como vocês se conheceram?
A gente se conheceu em um festival, aquele Cena Musical, que rolou em São Paulo em 2009 ou 2010. A gente se conheceu ali e começou a trocar figurinhas, querer fazer um som juntos e aí acabamos fazendo mais do que isso [risos].

Lançar nove discos em seis anos não é fácil. De onde vem tanta inspiração pra compor tudo isso?
Eu sempre brinco que isso é excesso de tempo livre [gargalhadas]. Você pode até ver que de um tempo pra cá não tem tanta coisa. Os últimos são de 2009. Aí você sabe como é: juventude em Lençóis, nada pra fazer, aí a diversão maior era fazer um som e gravar. Antes eu nem banda tinha. São quatro plays só de zoeira, sem show e sem banda. Aí eu e meus amigos começamos a pegar gosto pelo som e decidimos montar uma banda pra tocar efetivamente. Começou a ficar mais sério. Por isso que deu até uma caída no volume de lançamentos. Não é mais aquele ritmo frenético. Agora temos que tocar, arrumar show e encarar uma burocracia. Dá uma diminuída no ritmo, mas foi uma puta época

E de onde vinha essa vontade de tocar? Você estudou música ou foi uma coisa natural, como aprender a andar?
Foi que nem andar, na verdade. Eu sempre tive instrumentos em casa. Meu pai tinha um violão e minha irmã tinha um pianinho lá. Desde criancinha eu brincava e fuçava neles. Eu fiz um tempinho de aula de piano quando era moleque, mas aí quando eu fiz 10 anos eu escrevi minha primeira musiquinha [risos]. Depois continuei nessa. Ai quando eu descobri os programas de computador que me deixavam gravar em casa eu já logo comecei.

Em uma discografia tão extensa em tão pouco tempo, dá pra escolher um favorito?
Acho que o favorito mesmo é o mais novo, que ainda não saiu. Ele é o que está mais quente na cabeça. Mas eu curto muito o Raiz (2009), que sempre vai ser um dos meus favoritos, e o Maldito (2008). Esses são os que eu mais prezo.

Porque o Raiz é tão especial?
O Raiz tem a história da primeira vez que a gente veio morar em São Paulo para tentar trabalhar som. A gente levava disquinho nos bares, tentava arrumar show e nunca conseguia. Isso tudo me deixou puto com essa história de indie rock [gargalhadas]. Aí voltei pra Lençóis e resolvi fazer um disco caipira. Tive essa inspiração bizarra que gerou um disco bonito.

Cada um dos seus discos, claro que não todos, tem uma temática diferente. Como você escolhe esse tema dos álbuns? Você vai fazendo as músicas já pensando na unidade ou você vai compondo as músicas e depois só encaixa elas nos temas?
O primeiro disco que teve mesmo uma unidade temática foi o Raiz. Ele se desenvolveu do começo ao fim com uma ideia sonora só. Depois o Estatuto do Tabagista saiu como um lado furioso do Raiz. Eu até queria prensar esse disco como um álbum duplo, mas como eu não consegui, optei por lançar dois discos virtuais. Eles até saíram no mesmo dia, em 2009. O Estatuto também tem essa unidade de guitarras mais nervosas e de berros... Agora, o disco novo não tem mais uma temática sonora. As gravações foram mais esparsas e não tem nenhuma temática propriamente dita.

"Parece que quando você tem um trabalho muito variado entre humor e canções mais sérias e pesarosas, tudo isso acaba caindo no saco da brincadeira"

Queria falar um pouco das letras também. O Tom Zé tem a música "Complexo de Épico" em que ele fala da mania que o compositor brasileiro tem de ser tão sério. Por causa das suas letras mais bem humoradas, você tem medo de cair em um beco sem saída como o Língua de Trapo ou Mulheres Negras e acabar sendo tachado de "banda engraçadinha"?
Isso sim. Tenho muito medo que aconteça isso comigo. Até se olhar bem você vê que de 2009 pra cá já quase não tem mais humor nenhum, o som ta ficando totalmente sóbrio. O Maldito (2008) foi o último disco mais brincalhão. Mas rolou mesmo isso daí. Eu tive medo. Porque antes os discos eram um ninho de mafagafos. Tinha as músicas engraçadas e tinhas as fossas junto. E eu percebia que ficava difícil do pessoal assimilar a variedade. Parece que quando você tem um trabalho muito variado entre humor e canções mais sérias e pesarosas, tudo isso acaba caindo no saco da brincadeira. Parece que não dá pra emocionar juntando as duas coisas. O novo disco recupera um pouco o humor, mas a tendência é partir para uma parada mais séria. É perigoso continuar nessa e é uma coisa que eu não quero.

É difícil colocar o dedo e acertar quais são suas grandes influências, mas imagino que você ouça muita coisa diferente. Em quem você se inspira mais pra tocar?
É isso mesmo que você falou, muita coisa diferente através dos anos. Cada hora é uma coisa nova, mas nada nunca me marcou a ponto de eu dizer: "isso é muito bom, quero fazer uma coisa parecida". Mas tem de tudo. Acho que todo mundo que faz música gosta de ouvir "de tudo". A possibilidade de fazer os discos em casa e ficar atualizando o repertório a cada ano me traz essa vontade de não ficar preso a nada, de fazer um som depois do outro. Eu ouço mais anti-influências: uma coisa que eu curta mas com o que eu não quero parecer. Me parece que as coisas que eu ouço são mais um guia, algo para eu saber o que está rolando, o que teve antes e tentar fazer alguma coisa que não seja aquilo.

 

E essa decisão acaba te forçando a ampliar constantemente seus horizontes...
Sim, sem dúvida. É aquela coisa de sempre tentar não se repetir. Seria muito fácil se eu ficasse preso em alguma coisa e me repetir a todo momento. Por sorte essa decisão me ajudou a não me repetir. Sou mais inspirado por prosa de amigos, sair, beber, conversar e dali sai uma música. Minha ideia é sempre trazer para a canção a minha vivência, um negócio que esteja mesmo acontecendo.  

Hoje, 2012, o que você mais escuta em casa?
Cara, eu curto sempre ouvir a galera mais nova. Gente que está lançando disco hoje e bandas que estão aparecendo agora. Eu ouvi muito os discos do Pélico, do Terno, da Tulipa mesmo, que quando saiu em 2010 eu ouvi muito... Agora tá saindo as coisas novas que ela tá fazendo para o disco novo, aliás, que está bem legal. Tem a moçada do Bazar que eu ouvi bastante também, o Léo Cavalcanti... Dessa galera nova eu tenho ouvido muita coisa. Entre os internacionais ouço Tune Yards, Dirty Projectors, até o Strokes, que também lançou coisa nova há não muito tempo. Sempre o que tem saído hoje. Isso é o legal de hoje em dia: é o samba do criolo doido. Nada vira mas ao mesmo tempo tudo pode virar. É uma época foda.

E o 10º rebento sai em 2012. Já dá pra falar um pouco dele?
Com certeza. O novo disco chama-se Lembra? e na verdade ele já está pronto. Agora mesmo eu estou aqui na casa do meu baixista e a gente está masterizando as faixas pra mandar para a fábrica. Ele está pronto e é um disco interessante. É um disco que, pela primeira vez, ficou concentrado do lado monstruoso. São vários monstros em cada música [risos]. Ele é mais pesado liricamente. As letras vão para um lado mais de melancolia e questionamento individual. Vai ser um trabalho bem interessante para executar ao vivo. Eu imagino que ele seja de difícil digestão em um primeiro momento. É um pouco complicado e com temas mais escuros. Pode ser um show bem interessante, vai ser uma coisa meio cinematográfica.

"Houve uma explosão tão grande do disco virtual que ficou complicado separar o joio do trigo. São muitos e muitos discos virtuais saindo todos os dias, saca? De repente a mídia em geral leva mais a sério quando tem um CDzinho."

E por que você escolheu lançar o Lembra? em formato físico?
Eu acho que não tem a ver com o conteúdo. É mais por uma necessidade de mercado mesmo. A gente está tocando com discos virtuais há muito tempo e tem um nicho do mercado, especialmente da crítica, que acaba exigindo que você tenha um CD físico. Eu acho que houve uma explosão tão grande do disco virtual que ficou complicado separar o joio do trigo. São muitos e muitos discos virtuais saindo todos os dias, saca? E parece que quem faz o disco físico hoje oficializa o lançamento. Tem uma coisa assim e de repente a mídia em geral leva mais a sério quando tem um CDzinho. A ideia é chegar em cada vez mais pessoas e um CD físico vai ajudar a gente nisso. Como a gente quer tocar cada vez mais e para cada vez mais gente, optamos por lançar em CD.

E ainda tem esse lance de que muita gente gosta do formato em si. Eu não tenho paixão por nenhum formato, adoro MP3 e não troco por nada. Mas tem muita gente que tem esse fetiche do CD e do encarte. Você se enquadra nisso também ou você está satisfeito com o digital?
Eu também sou total MP3 [risos]. Eu baixo e ouço só no computador. Estou muito feliz com isso. Não gosto de lidar com CD. Mas realmente tem muita gente que curte, coleciona e gosta. Eles têm essa coisa do contato com o disco que eles acham legal. Eu acho bacana que o pessoal curta o CD e tenha alguma coisa para pegar na mão, para ver arte... Rola um contato mais íntimo e menos descartável. É marcante quando ele existe fisicamente, ele vira uma coisa que você pode ter de verdade. Já vem com uma história. Você comprou, ganhou e chegou nela de alguma forma. Aquilo vira uma lembrança. O MP3 você só baixa. Essa relação fica mais íntima quando o fã pega o disco. 

Site: www.rafaelcastro.com.br / Baixar os discos

Vai lá: Show no Espaço Zé Presidente
29/03, 22h - Preço: H - 15 / M - 15
rua Cardeal Arcoverde, 1545 - Pinheiros 
Tel: (11) 2894-8546 / 7800-0990  

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Ouça: top 5 de Rafael Castro

 

 

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