O show não é para a imprensa, eles não foram convidados. Essa foi a recepção de Mano Brown, líder dos Racionais MC`s, ao descobrir que alguns membros da imprensa estavam na Unidade de Internação da FEBEM (Fundação do Bem Estar do Menor) em Pirituba. A apresentação da banda de rap paulistana, até há pouco, não começou. Por enquanto, outras bandas estão no palco, e Brown fez uma palestra para os 82 internos (a capacidade é de 72) – todos réus primários de delitos graves. É mais fácil, porque os Racionais falam com os meninos na linguagem deles, explica Caio Rubens de Melo Castro, diretor da unidade. A idéia de promover shows desse porte é específica dessa unidade. A unidade de Pirituba foi inaugurada em fevereiro de 2002 e é um modelo dentro da entidade. Nosso repórter especial, Décio Galina, está no local e traz informações sobre o evento.
17h10:
Às 17 horas em ponto começou o show. Os Racionais entraram depois da banda Trilha Sonora do Gueto, um grupo apadrinhado por eles, e abriram com a música Fórmula Mágica da Paz, do disco Sobrevivendo no Inferno. Brown não permitiu fotografias nem filmagens. Abriu concessão apenas para uma televisão japonesa. Curiosamente, os Racionais MC`s acabaram de voltar do Japão, onde gravaram seus shows para a produção de um DVD. A apresentação parece feita para os amigos, já que os detentos estão sentados em cadeiras brancas de plástico e acompanham os cantos messiânicos de Mano Brown.
17h40:
O relógio na cadeia anda em câmera lenta, entoou Brown em Diário de um Detento, que veio na seqüência da Fórmula Mágica da Paz. O público foi à loucura. Na Febem, lembranças dolorosas então, rememorou na subseqüente Homem na Estrada. Para finalizar, Brown fugiu do script original e profetizou: somos o que somos, ninguém vai mudar. Delírio coletivo, alguém se lembra das cadeiras brancas? Nosso repórter tenta falar enquanto canta junto com a galera. Disse que em breve fará novo contato.
17h55:
Nego Drama, De Volta à Cena, O Crime Vai e Vida Loca I vieram na seqüência. Para acalmar os ouvidos estarrecidos, Brown filosofou: cada favelado é um universo em crise… Corre atrás do ouro sem pisar na cabeça de ninguém.
Depois, contou uma história alegórica – apelidaram-no de Lagartixa. Fiquei tão revoltado que se alastrou por toda a favela. Teria sido melhor se eu tivesse dado risada e levado numa boa. A mensagem estava dada, mas as risadas, não.
Cerca de trinta redações, resultado da palestra pré-show, foram entregues no palco aos Racionais. Engana-se quem acredita que a Febem é apenas um vestibular para o crime. L., 17, um ano e nove meses de Febem, em parceria com D., 20, ex-interno, e R., 20, dois anos e sete meses na detenção, escreveram um livro de 80 páginas, entitulado Ingresso para a Febem, ainda não editado. Relatam o dia-a-dia, as gírias e como é ser tratado como bicho, complementa L.
Nona música Vida Loca 2. Todos levantaram, cantaram, gesticularam. Não havia espaço para piadas. Risadas nem pensar. Depois de O Mundo Mágico de Oz e 55 minutos depois, fim de show. Aplausos, agradecimentos. Paz a todos, saúde, vamos se ver no mundão, emendou Brown.
Nem acredito que eles estão aqui. A gente nunca bota uma fé quando prometem coisas boas pra gente. Mas achei uma palhaçada chamarem as câmeras para mostrar só o lado bom da Febem., disse L., não ciente da proibição das câmeras pelo ídolo Brown.
Vai ser difícil quando eu sair daqui, mas agora quero ter uma conduta do ser humano digno, disse R, outro interno.
Sentimento esquisito, esse fio de esperança que o show trouxe. R. quer fazer faculdade de enfermagem. Outro interno, Nego Drama que não quis se identificar, logo perdeu-se no choro: Hoje está tudo bem, mas a gente sofre pra caralho aqui dentro. É embaçado. O problema é que não tem pra onde correr e a gente não tem autoridade pra conseguir nenhum benefício.
Ao deixar as instalações da Febem, missão cumprida, os santistas Brown, Ice Blue, Eddie Rock vão direto para o Morumbi, para assistir à final da Libertadores, no setor Laranja das arquibancadas.