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QUÉRCIA E A BALEIA

Que o litoral norte já não é a maravilha que costumava ser até seis ou sete anos atrás, quase todo mundo já sabe. A combinação dos efeitos do Plano Real com a pouca ou nenhuma informação de usuários, moradores e muito especialmente dos administradores da região conseguiu acabar com uma parte importante da magia do local. Muitas das praias que foram, durante décadas, refúgio de famílias ligadas à natureza e da moçada que buscava no litoral o cenário perfeito para os esportes hoje ridiculamente chamados de radicais e, principalmente, para romper com os paradigmas do eixo Augusta-Paulista-Jardins, se transformaram em passarelas para caminhonetes carregadas de boçais à procura de um índio para atear fogo.
Condomínios no mais puro estilo pombal brotaram por toda parte como cogumelos depois da chuva. Peruas ‘malhadas’desfilam suas bundas com glúteos trabalhados e as próteses diversas envolvidas pelo último grito em ‘moda praia’. Boites, bares, postos de gasolina, promotores distribuindo folhetos e amostras, placas de propaganda por toda a parte…
Para quem procura distância do inferno urbano, poucas alternativas restaram. Em situaçõoes difíceis como estas, como sempre, o dinheiro é uma das poucas ferramentas úteis.
Os mais abonados, dotados de algum bom senso, em vez de construir mansões de concreto e mármore à beira-mar, procuraram propriedades nas quais era possível proteger o cenário da devastação provocada pelo fluxo desordenado de gente.
Na praia da Baleia há hoje dezenas de condomínios fechados. Só um porém, é chamado de condomínio da Baleia pelos frequentadores do litoral, sem que nenhum deles tenha a menor dúvida sobre a que imóvel estão se referindo.
É o velho e bom critério de antiguidade. Aparentemente plantado no canto direito da praia, de quem olha para o mar, desde o final dos anos sessenta, o imóvel ainda é do tempo em que não eram necessárias piscinas com tobogã, saunas com hidromassagem, heliporto ou discoteca para valorizar um condomínio.
Ao contrário, além de construir duas quadras de tênis, os inteligentes empreendedores trataram de organizar o uso de terra de modo a preservar a vegetação e usando a topografia de forma que as casas, quase todas sem muro ou divisórias, se integrassem à paisagem ficando camufladas entre árvores, trepadeiras e arbustos. A própria praia, com sua faixa longa e comprida de areia batida, convida aos passeios a pé ou de bicicleta, fazendo com que raramente se veja por ali, aglomerações de gente, guarda-sóis e barracas que ultimamente tingem as areias das outras praias da área.
Nesse cenário, entre mergulhos, tardes de surf, festas e churrascos, cresceram os filhos de uma geração de abonados espertos, em geral empresários que conseguiram crescer nos anos setenta, fazendo capital significativo, sem abrir mão de valores como respeito à natureza e convívio social harmonioso. Não estamos falando de nenhum Nirvana, mas o fato é que a garotada que cresceu nesse condomínio, filha da burguesia produtiva com curso superior, ao contrário dos incendiadores de índios, usou o berço de ouro para perseguir educação, qualidade de vida e se transformou hoje em um pequeno exército de empreendedores, profissionais liberais, médicos, dentistas, comerciantes e outros geradores de empregos.
Tudo ia às mil maravilhas naquela espécie de ilha da fantasia quase imune aos efeitos da degradação do paraíso. Quase.
É que os anos noventa, as novas tecnologias e o próprio Plano Real foram implacáveis com a incompetência. O dinheiro anda trocando de mãos e o inevitável aconteceu. Vários bacanas de outros tempos se viram diante da síndrome de Mayrink Veiga e tiveram de botar a venda seus ítens supérfluos. No condomínio da Baleia não foi diferente. O que pouca gente esperava era a chegada de um novato ‘ilustre’ no pedaço.
E um belo dia eis que surge logo atrás do caminhão de mudanças, ele, o Dick Tracy de Campinas, o amigo de Carlos Rael e do português, o homem que ‘tanto fez’ por esta cidade (especialmente pelas vizinhanças do Parque Villa-Lobos). Orestes Quércia himself.
O paladino que aparecendo em redes de rádio e TV em ‘informes publicitários’ nos quais tenta através de críticas aos governo federal, estadual e municipal, lavar o cérebro e apagar a memória dos paulistas e brasileiros que sobreviveram ao seu governo, quebrou o porquinho, juntou sua ‘suada poupança’ e adquiriu por alguns muitos milhares de dólares uma das mais belas mansões do tal condomínio, obviamente de frente para o mar.
Há porém algumas coisas que o dinheiro demora um pouco mais para comprar e, ao que parece, a aceitação e a amizade de vizinhos é uma delas.
Mal a família Quércia se instalou em seu minifúndio à beira-mar, teve de assistir inerte à subida de um muro encomendado por um dos vizinhos que ‘coincidentemente’ decidiu depois de três décadas isolar seu imóvel.
Orestes e dona Alaíde não se fizeram de rogados. Ele, em suas andanças e tentativas de cooper pela praia, arrisca acenar pra grupos de pessoas que olham aquela figura estranha ao local sem entender bem o que se passa. Comenta-se a boca pequena que a ex-primeira dama paulista tentou quebrar o gelo e mandou a empregada até a casa da vizinha com o seguinte recado: ‘Dona Alaíde mandou perguntou se pode vir até aqui entregar um presente e se apresentar’. Meio sem saber o que fazer, a funcionária dos Quércia voltou à patroa com a resposta: ‘A mulher falou que a senhora pode pular o muro’. Segundo consta, dona Alaíde evitou os dez metros com barreira.
O último episódio de organismo repelindo corpo estranho ou, se preferir, rejeição em cadeia, deu-se num dos últimos feriados. Como fazem desde que nasceram, um bando de garotos e garotas na faixa dos 25 anos reuniu-se no muro da praia para conversar e ver o pôr-do-sol. O intrépido ex-poderoso avistou o bando e, pensando ter indentificado elementos suspeitos fumando maconha, enviou seus guarda-costas até o grupo com a missão de dispersá-lo.
Como a empregada, o anabolizado segurança voltou atordoado à presença do chefe e teria dito ‘O rapaz perguntou quem eu era, disse que nasceu e cresceu aqui há vinte oito anos. Disse que nós chegamos agora e devemos ficar na miúda’. Não houve reação do clã dos Quércia.
Quem disse que é fácil a vida dos marajás?

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