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?Quem nunca pensou em matar nem vivo está?

O colunista participou de um bate-papo na Uol na última sexta. Leia trechos da conversa

Por Redação

em 29 de maio de 2006

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Luiz Mendes: boa tarde, pessoal, estou aqui disposto a conversar. Vamos?
 
Juliana: como foi ser preso 30 anos, sair da cadeia e existirem celular, várias estações de metrô, internet… como foi sua reação?

Luiz Mendes: Juliana, claro que os avanços tecnológicos me surpreenderam gratamente. O Metrô. Parecia uma nave espacial. Mas os atrasos em termos sociais me decepcionaram imensamente. É só subir a estação Sé do metrô e ver ali as pessoas apagadas do contexto social, jogadas fora, abandonadas a seus desvarios. É muito triste…
 
Carlobes: Você acredita que agora a coisa vai acalmar em Sampa ou é apenas a ponta de iceberg?

Luiz Mendes: Carlobes, claro que tudo isso tende a se acalmar, mesmo porque ninguém tem todo esse fôlego. Mas o problema do sistema prisional, do egresso particularmente, continua o mesmo, então, potencialmente as coisas podem ficar muito piores. Pelo menos é o que parece aqui desse meu posto de observação nada favorável.
 
 
Kaa: Como suportar 30 anos na cadeia? Você teve fé? Passou por alguma deprê? Como agüentou tudo?

Luiz Mendes: Kaa, a questão não é como você tem que agüentar. O problema é mais em baixo: é que você tem que agüentar. Não há o que fazer de diferente. O que havia de diferente, eu fiz. Tentei ser diferença e acho que numa mínima parte consegui.
 
 
Abel: Luiz, hoje o Furukawa pediu demissão. Você era a favor de sua política? Sei que faltam várias medidas para serem tomadas, mas qual você acha que seria a primordial para tentarmos acabar com esse problema?

Luiz Mendes: Abel, não sou político, não gosto muito dessa fase da cultura humana, mas ela é muito necessária, eu concordo. Por conta disso, pouco sei sobre sua política. Não posso defender e nem acusá-lo. Apenas posso dizer que ele me atendeu muito bem e aceitou amplamente um projeto que criei cujo nome é Guia de Apoio à Cidadania. A finalidade é explicar aos presidiários que estão saindo como conseguir toda a documentação necessária aqui fora. Listar albergues noturnos e assistências sociais que possam ajudar o egresso na retomada de sua cidadania. Esse é um assunto extenso e não acho que cabe aqui dimensioná-lo, mas tenho que afirmar que recebi uma acolhida fantástica do secretário dos Assuntos Penitenciários. O projeto já esta em fase de construção, andando, felizmente. Não sei se com a saída dele tudo isso poderá ter continuidade. Tenho preocupação. Os cargos são de confiança… puxa… a gente nunca sabe o que vai acontecer neste país. Não há como acabar com esse problema mesmo porque não é um problema.
 
Zeca: Por quais cadeias você passou no Brasil? E quais os bandidos mais perigosos que conheceu?

Luiz Mendes: Zeca, passei somente por penitenciárias paulistas, várias delas. Não conheço bandido perigoso. Conheço seres humanos aprisionados e seres humanos que estão soltos. Qual é mais perigoso, tenho cá minhas dúvidas. Já houve quem dissesse que todos somos assassinos, que quem nunca pensou em matar nem vivo está.
 
Bruno: Luiz, você saberia responder qual ideologia motivou os líderes hoje no poder a fundarem a facção?

Luiz Mendes: Bruno, o que sei é de ter vivido lá dentro junto com eles desde o começo dessas idéias de união para sobreviver. Então, lá estando, eu os vi defender o mais fraco do mais forte. Vi acabarem os estupros, os abusos e eles sempre colocaram o peito na frente quando tinha que debater em benefício do preso. Não sei te dizer se as idéias deles são boas. Sei dizer que vivo minha vida do meu trabalho de escrever, vender livros, fazer palestras, estar em projetos, fazer consultorias… Ah! Até uma peça fiz ultimamente.
 
BIg!: Luiz, você passou 30 anos de sua vida em uma cadeia. O que você acha das situações em que as facções nos colocam hoje em dia, de muitas vezes pessoas deixarem de trabalhar porque os bandidos mandaram… O que você acha disso?

Luiz Mendes: Blg!. não acho nada, meu caro. Não estamos em tempo de achar. Agora são tempos de ter certezas, realizar estudos, pensar, refletir e repensar tudo. O que houve de verdade foi uma crise de Estado e não apenas uma guerra entre PCC e polícia. Eu também fiquei retido na segunda-feira na casa de minha sobrinha na zona norte de São Paulo. Não pude voltar para minha casa e trabalhar, já que trabalho em casa em meu computador. Mas não quero precipitar meu raciocínio, deixarei para mais tarde, depois dos ovos serem fritos, quando tiver de posse de todas as informações e não apenas daquelas que a mídia, que conhece tão pouco dessas causas sociais, veiculam irrefletidamente.
 
New: Você acha que o fim do PCC é possível?

Luiz Mendes: New, não é possível prever uma coisa dessas. Nem sei se isso é algo amplamente desejável. Olha, eles não apenas destruíram, pelo que sei.
 
De_BoA: Você sente saudade de alguma coisa em seu tempo de prisão?

Luiz Mendes: De BoA, não há como sentir saudades de algo que te corrói a carne e vai até o osso, deixando marcas tão profundas. Mas tenho saudades de amigos presos, alguns que me ajudaram muito a cumprir a minha parte.
 
Bruno: Luiz, o que o motivou a abandonar a vida do crime após sair da cadeia? Porque você foi uns dos poucos que saem da cadeia e não voltam à criminalidade…

Luiz Mendes: Bruno, você esta redondamente enganado. Muitos, cerca de 35% dos que saem da prisão, não voltam mais. Se você for nessas filas de albergues noturnos e nesses amontoados de seres apagados que vivem de mendigar nas praças da cidade, e perguntar, verá que muitos deles são ex-presidiários que não conseguiram a reinserção social e não voltaram para a prisão. Não sou modelo de nada. Para mim todo modelo é falso. Eu tenho uma profissão que conquistei em 30 anos de muitos estudos e leituras, enquanto os demais companheiros de presídio queriam jogar bola, conversar fiado no pátio e essas poucas e tediosas atividades prisionais. Eu lutei para chegar aonde cheguei e ainda engatinho.
 
HOMEM/43: Fala, Luis, li o vosso livro. Parabéns. O PCC sempre existiu ou isso é uma propaganda bem utilizada pelos nossos políticos?

Luiz Mendes: HOMEM/43, é evidente que o PCC existe. Propaganda do quê? Provavelmente o que aconteceu vá detonar até candidaturas. É como no caso do ex-governador Fleury. Depois do massacre da detenção não conseguiu mais passar de deputado.
 
Cornélio rsrsrsrs: Qual sua formação? Estudou na prisão?

Luiz Mendes: Cornélio, cheguei ao primeiro ano de direito. Mas sempre fui autodidata e só estudei em escola quando estive na universidade. Mas considero que os livros me salvaram, salvam e salvarão sempre. Isso me forma.
 
Cinddy: Luiz, fico escandalizada a cada rebelião que acontece nas penitenciárias. Os detentos queimarem todos os colchões, isso é revoltante, eu imagino que a vida lá dentro não deva ser fácil, mas não é justo, pois são comprados através do nosso dinheiro, esses vergonhosos impostos que nunca têm fim.
 
Luiz Mendes: Cinddy. o fim de sua pergunta responde: vergonhosos impostos que nunca têm fim. Se você soubesse, ou apenas imaginasse a loucura que se instala em uma rebelião, não pensaria em meros colchões queimados. Isso é o mínimo. Penso nas vidas perdidas. Parece que foram 18 nesses tempos de crise. Penso no desespero dos caras ali com medo de a PM invadir e matar todo mundo, como já ocorreu várias vezes, o desespero, a angústia, a consciência de estar ali e de que aquilo vai prejudicá-lo e você não tem nada com isso. O sofrimento humano despendido (sem contar com os familiares preocupados. Preso tem mãe, esposa, filhos também) me comove muito mais.

Homem: O que você achou da atuação do governo de São Paulo contra o PCC?

Luiz Mendes: Homem, não sei mesmo o que o governo poderia fazer, ninguém esperava que as coisas chegassem a essas dimensões, é preciso que se assuma primeiro. Daí a gente pode partir para alguma análise. Para mim o fato mais grave de tudo isso não foram os ataques do PCC. Foi, sim, a reação policial. Não sei como, mas os comandantes, sei lá quem, deveriam conversar mais seriamente com as tropas. Eles deveriam garantir que as leis fossem cumpridas. O revide, as mortes todas de gente que nem tinha nada com o molho, deixou a população vendida. Pelo menos eu fiquei. A pergunta agora não é de quem ter medo. Antes é de quem não ter medo daqui para a frente.
 
Silvia: Para você, qual a importância de projetos como o Leitura Livre, que promove debates e rodas de leitura nos presídios?

Luiz Mendes: Silvia, uma excelente pergunta. A sociedade não pode abandonar o presidiário à sanha dos diretores de presídio e guardas. Ficou absolutamente claro agora. Eles criam monstros. Não é mais possível, a partir dos fatos atuais, deixar isso de lado. A sociedade tem que entrar dentro das prisões. Há até uma lei, a 72l0, que prevê que a comunidade crie comissões para observar como são geridos os recursos públicos nas prisões. Mas isso também não funciona. Agora vai ter que funcionar, se queremos controlar a cultura criminal produzida nas prisões e Febens. Caso contrário, fatos desse nível se sucederão num crescente de violência incontrolável. A sociedade não pode abandonar o preso, sob pena de depois ser vítima de sua genialidade. O ser humano é genial, preso ou liberto, capaz de criar o impossível.
 
Luiz Mendes: A vocês que acompanharam esse bate papo, espero não tê-los ofendido ou agredido com as minhas idéias. Acho que tenho o direito de dizer o que vi e vivi, se me perguntarem. Acho que precisamos repensar tudo se queremos chegar a alguma coisa. Boa noite.
 
Luiz Alberto Mendes, 53, cumpriu pena de 31 anos e dez meses por assalto e homicídio. Nessa época, ainda enclausurado, começou a escrever para a Trip depois de seu livro Memórias de um Sobrevivente cair na Redação e impressionar pela qualidade do texto e força de suas histórias. Há quase dois anos Mendes conquistou sua liberdade.

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