Ícone do site Trip | Conteúdo que transforma

QUEM DEFENDE PITTA?

É natural. Uma coluna que se presta sempre que necessário a emitir opiniões provoca reações. Assim, é comum receber cartas e principalmente e-mails de leitores do jornal que desejam colocar-se diante das lebres que costumo levantar neste espaço que ocupo com orgulho.
O leitor assíduo, se existir algum, há de se recordar da coluna do dia 22 de setembro último, publicada sob o título ‘A obra de Maluf está sem alvará’.
No artigo, fazendo uso da prosaica porém verídica história da proprietária de uma floricultura autuada por um fiscal da prefeitura quando mandava o pedreiro abrir duas janelas na casa recém alugada, antecipei as denúncias sobre os achaques e a corrupção que imperam em grande parte das administrações regionais de São Paulo. Destaco este trecho: ‘Se o desfecho nesse caso ficou entre o patético e o engraçado, muitas vezes termina de maneira bem mais simples e rápida; um cheque.’
Aproveitei ainda para apontar meu modesto indicador na direção dos desmandos que reinam na compra, instalação e operação dos radares e câmeras que funcionam como armadilhas para fabricar dinheiro e financiar frangos e outras aves mais cabeludas, além dos intermináveis buracos nos calçamentos de enchentes e das filas e dificuldades que tem de enfrentar o cidadão quando precisa de qualquer serviço, autorização ou liberação que venha do poder público, aí sim, infelizmente, não fazendo muita diferença entre as esferas municipal, estadual ou federal. Terminei o tal artigo com o seguinte parágrafo: ‘Uma procuradora da Prefeitura, que pede para não revelar seu nome, garante que sob a administração de Maluf, através do Pittanic, a rede de pequena corrupção encontrou terreno fértil e ramificou-se de forma capilar por todos os guichês, antarquias e repartições, de modo que ninguém mais tem controle sobre quem toma de quem. Que Deus ilumine os eleitores. Pois bem, foram dezenas de fax e e-mails, a esmagadora maioria, de vítimas deste processo de pequena e média corrupção que nos assola a todos cotidianamente. Procurei, como sempre faço, responder a todos pessoalmente.
Houve uma exceção. A carta de um ‘assessor’ do Prefeito projetando farpas afiadas a título de indignação. Na época, resolvi ignorá-la. Se não por outros motivos, simplesmente porque ganhar a vida como ‘assessor’ de Celso Pitta já é castigo suficiente. Ademais, bem ao estilo do mestre Maluf, a carta do discípulo deslocava a suposta crítica ao plano da picuinha pessoal, da vingança, da ameaça velada, ridicularizando o povo, os esportes, as manifestações culturais, maneiras com as quais, desgraçadamente, os cidadãos paulistanos já vem se acostumando.
Por último, como o ‘assessor’ se pegava no significativo número de iludidos que elegeram Pitta, preferi aguardar a manifestação de arrependimento que, à despeito das pesquisas (àquela altura apontando Rossi e Maluf na liderança da disputa pelo governo), tinha certeza que viria.
Depois de quase três meses, peço a atenção do leitor à carta do ‘ilustre’ tecnocrata:

‘Ao Jornal da Tarde

Mais mortes no trânsito e menos rigor com as construções irregulares. Por incrível que pareça existe um ‘jornalista’ que quer isso para São Paulo, com uma Prefeitura mais branda com quem comete infrações: é o editor da revista ‘Trip’, Paulo Lima, que como especialista em surfe gosta de uma boa onda – desde que seja contra o prefeito Celso Pitta. Em seu artigo na página 4-c da edição desta terça-feita (22/9) do Jt, ele solta os cachorros em cima do prefeito, porque uma amiguinha, que fez uma reforma sem autorização, recebeu uma intimação da administração regional. E mais: reclama dos radares fotográficos, que já evitaram milhares de mortes no trânsito, e da Operação Tapa Buracos. Amante dos esportes radicais, ele deve estar frustrado por não poder correr mais com seu possante nas avenidas nem disputar provas de rali, desviando dos buracos que estão sendo tapados. Se ações da Prefeitura como essa, ou como a retirada dos ambulantes das ruas do centro, fossem idéias de um prefeito tucano ou petista, o ‘jornalista’ certamente faria um artigo elogiando o administrador, que finalmente estaria colocando a cidade em ordem. Mas como o autor é o malufista Celso Pitta não vale. Do alto de sua ‘sabedoria'(capaz de culpar o prefeito até pelas filas do Detran, que é um órgão do governo do Estado), Paulo Lima se julga superior aos 3,2 milhões de paulistanos que elegeram Pitta e que, como to a população, estão sendo beneficiados, por exemplo, pelas obras contra enchentes (1,2 milhão de pessoas até agora), aumento do ensino fundamental para nove anos (100 mil crianças) e ampliação do horário de atendimento do PAS (30 mil pacientes a mais por mês). Mas o ódio e o preconceito de Paulo Lima o cegam para as boas novas. Os leitores do JT merecem algo melhor.

André Sales, da Secretaria de Comunicação Social da Prefeitura de São Paulo.’

Vejam o que menos de três meses podem fazer com um discurso oco, frágil e inflamado. A melhor resposta à carta seria enviar ao missivista um bom exemplar do Jornal da Tarde ou mesmo de qualquer outro periódico paulistano sério.
De largada, o definitivamente derrotado Maluf, que já deserdara sua cria em plena campanha, solta nota oficial dizendo textualmente de sua indignação diante das palavras recentes do prefeito e de sua mulher. Estes declaram em público coisas como ‘pagamos pelo frango que não comemos’, demitem e afastam os malufistas viscerais da prefeitura, se livram de todos os Edevaldos na busca do resgate de alguma personalidade, autoridade e dignidade, se é que ainda há tempo. O exemplar do último Sábado do JT seria aliás perfeito para enviar ao ‘assessor’ furioso. Na capa, vemos em letras gigantes, com merecido destaque: MÁFIA DOS FISCAIS: JUSTIÇA INDICIA 2 E TEM 10 NA MIRA. Seguindo a manchete, os dados estarrecedores que vêm estofando o noticiário de todos os jornais e das revistas nas últimas semanas, fiscais que ganham 2 mil reais ostentando saldos milionários, arquivos que desaparecem, listas de propinas e tudo o mais. Ao lado da manchete em epígrafe, uma foto de cerca de 20 centímetros de altura por três colunas, mostra as marginais do Tietê completamente congestionadas e travadas pela enchente. Vejamos o texto que acompanha a imagem: ‘TEMPORADA’ DE ENCHENTES: Com a chuva, o Tietê transbordou em vários pontos, alagando a Marginal – às 10 h, a CET registrava 118 Km de lentidão. Projetos da Prefeitura contra as inundações estão atrasados e secretário de Vias Públicas admite que o risco é constante.
Seria necessário comentar o PAS, o Cingapura, a qualidade do ensino e os salários dos professores? Ah, os radares. Vamos enviar junto do exemplar de sábado do JT, a última edição (de 08/12) do Jornal do Trânsito, publicação quinzenal especializada no tema, com 150 mil exemplares de tiragem.
Mais uma vez, bastaria a leitura da manchete: RADAR: ARMADILHA QUE AUMENTA O FATURAMENTO DA PREFEITURA E PESA NO ORÇAMENTO FAMILIAR. Vejamos parte da reportagem: ‘… Esse tipo de fiscalização tornou-se uma indústria de multas que engorda os cofres da Prefeitura. Uma multa de R$ 518,00 pesa no orçamento familiar. Para pagá-la é necessário um bom salário, o que poucos têm.. Toda multa é um tormento para o motorista e uma festa para a prefeitura e as operadoras dos equipamentos. De cada multa paga pelos 40 radares fixos, a Engebrás, empresa responsável pela sua instalação e operação, recebe R$ 15,89. A CONSLADEL, responsável pelos 20 radares móveis, recebe R$ 19,52.’
Educação, a verdadeira solução para todos os nossos problemas, fica em último lugar na cabeça e nas prioridades de nossos governantes, muito especialmente do âmbito municipal. Multas e armadilhas são as técnicas mais acessíveis a quem quer a qualquer custo produzir caixa para se locupletar à base de filés de frango e financiar ‘assessores’ com salários para os quais multas de 500 reais são café pequeno.
Eu mesmo mandaria os referidos exemplares de jornais ao missivista se não tivesse a esta altura dúvida sobre seu paradeiro, já que os aliados malufistas de outrora parecem ter sido convidados a se retirar da triste nau da Prefeitura. Cada país tem os escândalos e governantes que merece.

Sair da versão mobile