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Que rufem os tambores

Por Cirilo Dias

Que rufem os tambores No dia 1º de abril, sigo tranqüilamente a caminho do trabalho, pensando em alguma mentira para sacanear alguém. Como de costume, preencho a espera pelo próximo ônibus olhando a capa de vários jornais, e infelizmente, também como de costume, estão lá as notícias sobre “desgraças vendedoras de jornal”, e em letras garrafais a manchete “Menina de 5 anos é arremessada do 6º andar de prédio”. Primeiro pensamento: “Mais uma pessoa que é engolida pela loucura dessa cidade”. Ledo engano. A garota, que tinha morrido havia apenas um dia, acabara de entrar para a história do jornalismo, ou melhor, para servir de personagem para mais uma história fantástica de horror do jornalismo. Em apenas um dia, provou-se a (in)eficiência dos meios de comunicação, que atuando com autoridades “competentes” solucionaram o crime em tempo recorde, estampando em suas manchetes, no dia seguinte, a solução de um crime ainda a ser investigado. É claro, os jornalistas mais “experientes, sensíveis e responsáveis” tomaram o cuidado de lembrar o que nos ensinam na faculdade de jornalismo, de sempre supor, dar a entender, nunca acusar, então, foi aliviante ler em alguns jornais diários as frases “pode ter sido”, “supostamente foi jogada”. Desde então, o circo foi armado, os leões atiçados e a horda incendiada, permeadas notícias como: “mãe da menina se encontra com padre Marcelo Rossi; madrasta sofria de surtos psicóticos; mãe deixa homenagem no Orkut; vizinhos chamam pais de assassinos; multidão tumultua e tenta linchar o casal”.

Enquanto isso, sobrevoando o meu prédio que fica a algumas quadras do distrito policial onde o pai da garota ficou preso, vários helicópteros de emissoras de TV, urubuzando à espera de mais uma carniça, testemunhando a horda enfurecida gritar “assassino”, “lincha”, “mata”. As imagens, devidamente editadas e transmitidas no jornal da manhã para acompanhar a primeira refeição do dia, foram reverberadas durante o habitual trajeto de ônibus, e continuou aqui na redação. Os comentários na rua eram os mais diversos, “eu concordo, tem que matar mesmo”, outros, mais ponderados, “mas será que foram os pais que mataram mesmo?” e um outro que chamou mais atenção, “se linchar, não dá nada, a polícia não prende”.

“O linchamento dos pais da garota é fruto da grande exposição que esse caso está ganhando na mídia. Acho que está exagerado demais, a gente não pode dar tanto espaço para isso. Cabe à justiça julgar o que aconteceu, e aí sim, dentro da lei, existem formas de as pessoas envolvidas serem punidas. Sou contra qualquer tipo de ato nesse sentido”, diz Décio Galina, redator-chefe da revista IMOCX. Opinião compartilhada pela repórter da Tpm, Nina Lemos, “Acho que a polícia, a sociedade e as TVs estão incentivando de certa forma o linchamento. Formou-se um circo de terror, com arquibancada, banheiro químico e pessoas para serem jogadas aos leões. Porque, se tem tudo isso, espera-se que aconteça alguma coisa. Acho que as pessoas querem o linchamento, e isso é um absurdo. Se existe lei, é ela quem deve funcionar. Não é terra de ninguém, onde cada um fica puto e sai fazendo o que quer.”

O linchamento ocorre desde a antigüidade, mas a palavra tem sua origem atribuída às práticas do capitão americano Willian Lynch (1742-1820), que mantinha um comitê para a manutenção da ordem no condado de Pittsylvani, Virgínia, por volta de 1780. Segundo o estudo “Distrust of Government, the Vigilante Tradition, and Support for Capital Punishment”, de Steven F. Messner, Eric P. Baumer e Richard Rosenfeld, a prática de punições severas também é uma espécie de ritual comum praticado pelas vítimas, um modo de inibir a frustração da falta de apoio do governo a penas de morte.

A prática do linchamento ficou particularmente associada ao assassinato de negros no sul dos Estados Unidos no período anterior às reformas dos direitos civis da década de 1960. Menos de 1% dos participantes de linchamentos nos EUA foi preso.

O artigo de lei n° 28, inciso I do código penal, diz: “Não excluem a imputabilidade penal: I – a emoção ou a paixão; (…)”, e esses dois sentimentos estão em plena forma, sendo exercitados diariamente com toneladas de informações parciais, incitando todos ao linchamento como forma de justiça, pela morte da menina, para quem sabe assim aliviar as frustrações de cada um. E você, o que acha?

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