ilustração Beto Shibata
A força da ética
O senador Eduardo Suplicy, por exemplo. Quando estourou o escândalo dos Correios, com direito a vídeo, propina e tudo o mais, o governo achou que uma Comissão Parlamentar de Inquérito não seria conveniente e alguém, lá em Brasília, decidiu apostar todas a fichas na obstrução da comissão. O porquê só eles poderiam imaginar. O partido do governo decidiu dar total apoio a essa determinação quase suicida. Política é assim mesmo. Na última hora o senador Suplicy resolveu que não. Que não iria apoiar a obstrução de uma CPI coisa nenhuma. Que achava que o melhor a ser feito naquele momento era averiguar as denúncias [o que para mim faz sentido] e que, mesmo arriscando a sua candidatura nas próximas eleições [por ir contra as diretrizes do partido ele corria o perigo de ser rifado], ele votaria de acordo com as suas convicções. Subiu ao plenário e em um discurso carregado de emoção, como sempre, comunicou sua decisão. O senador Eduardo Suplicy tem sido eleito durante toda a sua trajetória política por um volume constante de votos de eleitores que estão acostumados com suas atitudes aparentemente polêmicas mas sempre coe-rentes e corajosas.
A professora Anita Leocádia Prestes. Ela é filha do lendário líder comunista Luiz Carlos Prestes. A Comissão de Anistia a fez depositária de uma indenização de R$ 100 mil. Apesar de ter tido de fugir do Brasil, durante os anos da ditadura [esse é o motivo da indenização], a professora Anita Leocádia acha que como ela não foi nem presa, nem torturada, não tem por que receber esse dinheiro. Fez um cheque, no mesmíssimo valor da indenização, e o entregou para a Fundação Ary Frauzino para a Pesquisa e Controle do Câncer, do Rio de Janeiro.
O escritor e autor de telenovelas Aguinaldo Silva. Ele colocou, admiravelmente, os pingos sobre os is nas últimas entrevistas que deu para o jornal O Estado de S. Paulo, para o site nominimo.com.br e para a revista Cult [edição #91]. Mesmo com o sucesso espetacular de Senhora do Destino, a sua última telenovela, Aguinaldo sempre fala o que pensa e com uma coerência demolidora e inigualável. Seja sobre a Globo [ele trabalha para a Globo], homossexuais [ele é assumido], a juventude brasileira, sexualidade, o que seja. Aguinaldo, como se dizia no meu tempo, não tem ?pelos en la lingua?.
Para eles, se eu fosse ao programa do Raul Gil, tiraria o chapéu. Soltaria rojões se eu fosse fogueteiro. Como isso não vai acontecer mando, desde aqui, o meu abraço caloroso e verdadeiro. Que a força esteja com vocês.
*J. R. Duran, 52, fotógrafo e escritor, acredita no luxo de ser ético e honesto nestes tempos de cólera. Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br