por Ricardo Moreno, de Nova York
foto: Reprodução/N. Burnham
“Eu não posso mais com isso. É um pecado. De manhã eu vou à igreja e à tarde estou aqui nesse cinema pornô”, diz a sexagenária Sharon Dobossy na última edição do jornal Village Voice. Aos 62 anos, Sharon era a gerente do tradicionalíssimo cinema pornô Polk, no Queens, em Nova York. Mas a afirmação cheia de culpa não é o motivo principal para que um dos últimos remanescentes da sacanagem em tela grande e película de NY tenha fechado as portas dois meses atrás.
A culpa, digamos assim, é de Harold Gussin, 75 anos cravados na identidade e mais de 50 deles dedicado ao prazer dos outros. “Simplesmente cansei”, afirma, com a voz fraca. Mas ele não esperava que um dia isso pudesse acontecer. Quando começou a tocar o negócio, no início dos anos 50, Gussin, ou Mr. G, como é mais conhecido, exibia filmes para toda a família.
Menos de uma década depois as histórias cheias de amor e de sonho americano deram lugar a fantasias um pouco mais molhadas. Era um sucesso. E assim permaneceu durante anos e anos. Até que a Internet, a TV a cabo, os DVDs piratas e toda a lista de maravilhas da vida moderna chegaram.
Não demorou muito e as 599 cadeiras em estilo art déco e as luminárias formosas da entrada do Polk passaram a ser cada vez menos freqüentadas, cada dia mais secas de fantasia.
Até o início dos anos 90, as calças dos nova-iorquinos ebuliam com um sem-número de estabelecimentos dessa natureza num de seus espaços mais nobres: a Times Square, região central de Manhattan, e ponto predileto de nove entre dez turistas de todo o mundo – os brasileiros não são exceção.
Quando foi eleito prefeito da cidade, em 1994, Rudolph Giuliani anunciou um verdadeiro varre tudo. Aumentou fortemente o policiamento no local, baniu as sex shops e os cinemas de temática adulta. No lugar deles, facilitou a abertura de pontos turísticos, como aquelas “lojinhas” que vendem desde camisetas escritas “I Love NY” até máscaras com a cara da Estátua da Liberdade e cartas de baralho com fotos em preto-e-branco do falecido World Trade Center.
“As pessoas não querem mais isso. Elas vêem na televisão ou compram o filme e os levam pra casa”, acredita. Poucas semanas antes de fechar suas portas, o Polk era um desastre.
Sharon confessa: “Ele fedia”.
