POR BRUNA BITTENCOURT
É difícil separar a trajetória de Amos Gitai da história de Israel. Filho de um arquiteto e de uma ativista sionista, o cineasta nasceu naquele país dois anos depois de ele ter sido criado, em 1948. Aos 23 anos, cursando arquitetura, Gitai se juntou ao exército israelense e, durante uma missão, o helicóptero que o transportava foi atingido por um míssil sírio. O episódio foi decisivo para que ele trocasse a prancheta por uma câmera – evento que seria transformado no documentário Kippur: War Memories, de 1993, e no filme Kippur, de 2000, comparado a Apocalypse Now, de Coppola.
No início da década de 80, o diretor se auto-exilou na França. Retornou a Israel depois de dez anos, quando o então primeiro-ministro Yitzhak Rabin iniciou o processo de paz com a Palestina. Do fanatismo religioso dos judeus ortodoxos de Kadosh (1999) às frágeis áreas de convivência entre palestinos e judeus de Free Zone (2005), seu mais recente filme, estrelado por Natalie Portman e programado para a Mostra de São Paulo deste ano, Gitai coloca o dedo em várias feridas do conflito no Oriente Médio. De Veneza, onde participou do júri do festival de cinema da cidade, o diretor falou à Trip.
Free Zone será exibido neste mês na Mostra Internacional de São Paulo. Como é essa “área livre” capturada por seu cinema?Temos uma imagem do Oriente Médio de uma região com fronteiras rígidas, campos minados e repleto de ódio e perigo. Free Zone tenta ultrapassar esses limites. É baseado numa experiência que tive com um sujeito que trabalha como motorista nos meus filmes. Certa vez, desempregado, ele encontrou um parceiro na Jordânia. Juntos, consertavam e blindavam carros usados para depois vender para companhias iraquianas. Para mim, parecia ficção científica: como um israelense e um árabe poderiam fabricar carros blindados?
Foi a primeira vez que o senhor usou uma atriz de Hollywood num filme. Como foi? Por cerca de seis meses, Natalie Portman me escreveu e-mails dizendo que gostaria de fazer um filme comigo. Não sabia como lidar com isso. Convidei-a para jantar e ela me contou sua história de vida. Descobri que Natalie nasceu em Jerusalém e foi para os Estados Unidos com 3 anos. Quando lhe enviei o script, ela encontrou nele muito do que me contara no jantar. No filme, achei uma maneira de adaptar suas experiências para uma passageira de um táxi que vai de Jerusalém até a Jordânia. Ela refaz a viagem que eu fiz na vida real. Achei alguém mais bonito para me interpretar.
O que o senhor achou da recente retirada de Gaza? Como o senhor vê o futuro do conflito? A retirada deveria ser seguida de uma proposta religiosa e nacionalista. Obviamente, essa é apenas uma das mudanças políticas necessárias. Isso não deve ser o fim. Acho bom quando um acontecimento tenta mudar o status quo e mostrar outros caminhos. Ainda acredito que fatos como esse nos dão um senso de direção, o que é muito importante.
Fernando Meirelles, diretor de Cidade de Deus, foi criticado por tratar do tráfico de drogas com uma linguagem moderna. Como o senhor vê esse tipo de crítica? O cinema não é uma mídia antiga. Acho muito bom quando as pessoas o questionam, tentam mudá-lo. Se encerrarmos a discussão, nós apenas repetiremos a mesma forma. É bom abrir o debate.
Quem são seus diretores preferidos hoje em dia? Gosto de diretores ligados ao seu país ou a sua origem, como Glauber Rocha e Rosselini. Pessoas que alimentam o cinema pela linguagem, pela natureza caótica do cotidiano – São Paulo, obviamente, pode muito bem preencher essa proposta. São diretores que às vezes filmam documentários, às vezes usam a ficção, mas que, essencialmente, mostram o que é, de fato, a condição humana.
O senhor esteve por aqui para a retrospectiva de sua obra na mostra do ano passado. O que ficou dessa visita? Gosto muito de São Paulo. É uma grande metrópole, uma mistura de diferentes países, mas, também, de diferentes classes de uma maneira que é possível enxergar a forma como o interior penetra na cidade. Eu me formei em arquitetura antes de virar cineasta e como arquiteto tive uma forte impressão de São Paulo.
Mostra tudo
A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo chega a sua 29a edição este ano. As exibições mais aguardadas são Manderlay, do dinamarquês Lars Von Trier, segundo filme da trilogia iniciada com Dogville, e o novo do diretor chinês Wong Kar-Wai: 2046. Os destaques brasileiros são Crime Delicado, de Beto Brant, o documentário do nosso “páginas negras” Eduardo Coutinho, O Fim e o Princípio, além de Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, e Cidade Baixa, de Sergio Machado. A atriz espanhola Victoria Abril é uma das convidadas deste ano. A mostra vai de 21 de outubro a 3 de novembro. Programação e outras informações: www.mostra.org
