por Kátia Lessa
Você não precisa olhar para a sua mão para saber se ela está aberta ou fechada. O corpo tem “informantes”, os mecanorreceptores, que avisam o seu sistema nervoso. São os mesmos informantes que fazem com que você derrube um objeto muito pesado, que sobrecarregaria seus músculos e tendões. São eles também que ajudam seu corpo a dar aquela equilibrada antes de levar um tombo muito feio quando você pisa em um buraco na rua.
A propriocepção é como se fosse um sentido como olfato, tato ou audição; porém, um sentido que atua do “lado de dentro” do seu corpo. Está relacionada à posição e ao movimento dos membros. Ela atua na sensibilidade de posicionamento das articulações, no equilíbrio e na ativação muscular reflexa.
Especialista em medicina esportiva, o paulistano Renato Lotufo, 50, descobriu a propriocepção em um congresso com o norueguês Roald Bahr, o pai da técnica, e resolveu aplicar o que aprendeu em times de futebol. O gringo havia feito uma pesquisa com um time de handball e descobriu que poderia diminuir em 50% as lesões de joelho das jogadoras.
Por aqui, doutor Lotufo começou a trabalhar com os craques da categoria de base do Corinthians. Os resultados foram impressionantes – e já fazem parte da rotina dos maiores clubes do país. Em 2004, os competidores do Timão apresentavam 141 lesões. Em 2005, ano que a técnica foi implantada, o número caiu para 79. Ano passado, as lesões não passaram de 21.
A melhora alvinegra é resultado de muito exercício: a prática da propriocepção previne lesões e até restaura o sistema proprioceptivo danificado por um machucado, como uma torção ou um ligamento rompido. Quase todo o treino é feito sobre bases instáveis, como ficar em pé sobre uma bola ou uma cama elástica e manter-se em um pé só com os olhos fechados.
Quando o corpo se desequilibra, os seus mecanorreceptores captam a alteração do corpo e informam ao sistema nervoso central a exata posição dos seus músculos, o ângulo dos seus tendões e ossos. Então, o cérebro manda de volta para essa região a informação que diz como os músculos devem se posicionar para proteger seu corpo.
A prática não favorece só os atletas profissionais. Se você apenas curte surfar no fim de semana ou andar de skate por aí, os exercícios proprioceptivos serão perfeitos – afinal, ajudam a utilizar conscientemente o centro de gravidade do corpo. Para os ciclistas, que ficam muito tempo curvados sobre o guidão, a notícia também é boa. Um dos principais benefícios é a prevenção da hérnia de disco.
O médico paulistano Gustavo Fogolin, 27, fisioterapeuta que utiliza com freqüência a propriocepção em pessoas que tiveram problemas no tornozelo ou principalmente no joelho, conta que a prática ajudaria muito nos esportes considerados radicais e que ajuda até mesmo equipes de corrida de aventura. “Esses esportistas estão sujeitos a lesionar os membros inferiores com facilidade.
Com essa prática aqui na clínica, eles melhoram a postura, a coordenação e intensificam a força muscular. Usam isso para aumentar o desempenho nas modalidades que fazem parte do esporte, como corrida, escalada e natação”, afirma Gustavo. Essa força extra atinge até um competidor de atletismo: apesar de percorrer um terreno sem grandes obstáculos, o corredor aprende como distribuir o peso do corpo – isso pode ser um fator importante na hora da largada.
No Brasil, os exercícios funcionais, como são conhecidos, não são facilmente encontrados em academias – mas já é possível marcar treinos nas melhores clínicas de fisioterapia ou sair improvisando caminhadas sobre tábuas, cama elástica ou barras de equilíbrio. Segura aí!
