por Tania Menai, de Nova York foto Renato Breder
Chove. Na esquina da Bedford Avenue com a North 7th, Arthur me espera, bebendo um café. De calça jeans, moletom cinza e tênis vermelho, observa o vaivém de guarda-chuvas coloridos através do vidro da Oásis, uma lanchonete árabe, onde a TV mostra um programa de auditório de Dubai. Sua bicicleta, branca, soldada à mão por um artista do bairro, o aguardava do lado de fora. A apenas uma estação de Manhattan, emergi da linha L do metrô em Williamsburg – um cantinho do Brooklyn que parou na história, mas não no tempo. Aqui vivem artistas, escultores, designers – e fotógrafos, como Arthur, que deixou o Rio de Janeiro há oito anos. Gente que ama o autêntico e abomina o comum. Gente que só anda de bicicleta. Gente que desconhece paredes brancas, por viver num bairro todo pichado pela ousadia artística. Um deles assina “Val Kilmer” por onde passa. “Adoro o muro do Mágico de Oz, na Union Avenue com a North 11th”, afirma a peruana “local” Carmen Bedoya. O bairro respira juventude. Mas não pense em encontar Starbucks, McDonald’s ou livrarias Barnes & Noble. Muito menos marcas maria-vai-com-as-outras de bolsas ou roupas. Ninguém precisa disso. Aqui, fizeram deste charme uma lei que proíbe redes e cadeias de fast-food. O que o povo daqui precisa mesmo é de brechó. Estão em toda parte, como o Beacon’s Closet, a ocupar um imenso galpão que outrora abrigava fábrica. O bairro nasceu em 1792, quando um senhor comprou lotes de terra para desafogar o sempre apinhado sul de Manhattan, ali do outro lado do East River. Uma balsa cruzava o rio, transportando até cavalos. Em 1830, chegaram os magnatas. Fábricas brotaram; entre elas, a farmacêutica Pfizer. Construída em 1903, a ponte de Williamsburg trouxe de Manhattan muitos judeus ortodoxos, e até 1920 a população dobrou com a vinda de europeus do leste.
Recentemente, porto-riquenhos. Hoje, todos entrelaçam sotaques pelas ruas – well, estamos em Nova York. Contra os arranha-céus É em Williamsburg que fica o Peter Luger, restaurante fundado em 1887, até hoje o predileto de carnívoros endinheirados. Mas almoçamos baked eggs e café latte no Fabiane’s, cuja dona é brasileira, e as garçonetes, polonesas. Do outro lado da rua, um judeu hassídico usa o computador ao lado de um rastafári num dos vários cybercafés. Passos dali, uma loja de design de ponta sinaliza uma nova era: Williamsburg, por décadas um bairro decadente, não escapou do tradicional ciclo novaiorquino – primeiro chegam os artistas em busca de espaço e aluguel barato. Com isso, pipocam cafés e restaurantes. Depois, vêm as lojas. O comércio atrai projetos imobiliários. Neles, passam a viver os engravatados. E assim, os artistas são expulsos do bairro, buscando áreas abandonadas… recomeçando o tal ciclo. Premiado com edifícios baixos e uma vista estarrecedora para Manhattan, Williamsburg luta para barrar os cinco projetos de arranha-céus a serem erguidos à beira do East River, “que prometem deixar o bairro chato”, como definiu o fotógrafo Vik Muniz, morador da área. Ao meu lado, Arthur navega pelas largas ruas retratando carros antigos e bicicletas estilizadas. Suas lentes também seguem uma mulher de sombrinha japonesa a passo apressado; de repente, ele dá meia-volta atrás de outra, que se protege da garoa com um guarda-chuva de vinil azul claro. Aos poucos, passo a ver o bairro através de suas retinas. O carioca me leva à Moon River Chattel, loja que ostenta um berço antigo na vitrine e vende até “escova de dentes biodegradável”… Visitamos ainda uma loja de discos de vinil, a KCDC, de skate, e a Fresh Kills, de móveis estilosos e velas aromáticas. Quadras adiante, Arthur abre uma porta discreta, que dá numa galeria de arte. Ali, somos recebidos por nada menos que um cãozinho feliz. “Essa vizinhança adora cachorros,” explica. E galerias também: são mais de 30, todas sofisticadas. Arthur conta que as vernissages acontecem noite adentro, para que os convidados saiam das galerias de Manhattan e estiquem nas de Williamsburg. Pensando bem, neste bairro dá vontade mesmo é de esticar a vida. Toda.
Vai lá | Williamsburg, Brooklyn, NY
TAM: SP–NY (R$ 2831,13), RJ–NY (R$ 2705,65) Union Square Inn (em Manhattan, 2 estações de metrô na linha L) 209 East 14th Street, phone: (212) 614-0500, unionsquareinn@nyinns.com. Para chegar a Williamsburg: pegue a linha L do metrô e desça na estação Bedford.
