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Procura-se Deus

Tenho desesperadamente procurado um ou mais deuses no qual crer. Os filmes que dirijo me dão a oportunidade de viajar pelo mundo nessa busca. Talvez porque a minha fé seja imensa e insaciável ou talvez pelo contrário, porque não tenho fé nenhuma, invariavelmente volto para casa sem Deus.
Na escola judaica em São Paulo queriam que eu acreditasse no Deus único dos judeus. Até tentei ser um bom rapaz, mas comigo o lance não colou muito. Na sinagoga eu me entediava e ia para o pátio bater figurinha e jogar futebol. Não agüentava o hálito de ovo cozido picadinho com cebola do rabino. O judaísmo me parecia excessivamente racional, árido e austero. Deus não pode ser tão mal-humorado.
Em casa, o quarto da minha babá era um bastião cristão. Lá tinha cruz, Virgem Maria, presépio e árvore de Natal. Mas pra mim Jesus sempre foi um grande homem; e a idéia de que um ser humano pudesse ser Deus me parecia mais uma genial jogada de marketing religioso inspirada na vaidade dos homens.

Creo em brujas, pero…
Visitei uma mãe-de-santo na Etiópia. Sem que eu dissesse uma palavra, ela me olhou fundo nos olhos e disse: ‘Dá um fora já na mulher estrangeira que está bloqueando sua vida’. Chapei. Andava mesmo muito triste por causa de uma italiana de coração indeciso por quem eu me apaixonara. Ela me disse para nunca namorar estrangeiras. Desobedeci e casei com uma inglesa judia de origem indiana.
Na Índia vi um enorme edifício cor-de-rosa se erguer no meio de um coqueiral sem-fim, no mar da Arábia. Ao redor deste, dezenas de milhares de fiéis faziam fila para receber um abraço da guru Amma Amritanandamayi. Amma é uma das mais importantes líderes espirituais do mundo, a Mãe Menininha do Gantois do hinduísmo. Ela fica sentada num palco. Passa dias e noites, sem repouso abraçando seus fiéis com um sorriso abençoado.
No abraço dela senti um calor maravilhoso e protetor, um carinho tão infinito como o que eu sentia no abraço da minha avó. Mas não consegui encontrar Deus nos seus braços. Porque tudo lá me pareceu muito ‘bonzinho’, mas meio broxa, assexuado. Pra mim, o divino inclui a carne. Deus curte também uma sacanagem.

Pretexto para o ódio
Em Moçambique, no meio do mato conheci uma senhora chamada Kebe. O seu genro, Niabonga – que nutria por ela um profundo ódio -, foi depor contra ela na casa do mambo, o líder da tribo. Niabonga acusava Kebe de botar mau-olhado nos seus filhos. Algumas crianças morreram, outras estavam muito doentes. O líder da tribo convocou um bruxo para investigar o caso. O bruxo – que na verdade era cupincha do Niabonga – confirmou o mau-olhado e Kebe, mesmo dizendo-se inocente, foi obrigada a participar de uma humilhante cerimônia de exorcismo. Em todo o mundo, em todos os tempos os homens usaram e usam a religião para canalizar o ódio.
Estava na via Dutra e resolvi parar em Aparecida do Norte para comer um pastel e beber caldo-de-cana na praça de alimentação da basílica. Fui atraído como um sonâmbulo para aquela basílica que mais parece uma rodoviária – mas que também é muito linda. Entrei na sala das promessas abarrotada de braços, pernas, abdomens e cabeças. Tive a sensação nítida de que Deus quisesse mesmo que os homens fizessem aquilo tudo por ele. E a imagem da Virgem tão pequena e singela. E a camiseta da seleção que Ronaldo levou pra Virgem depois da Copa. Confesso que comecei a chorar.
Quase consegui falar com Deus, mas no alto-falante tocava Britney Spears. Fé cega, estética SBT. Talvez Deus seja mesmo brasileiro e feito de plástico. A busca continua, a minha ignorância é enorme. Parece que é brincadeira. Mas quem garante que Deus não gosta de rir e é fã do Sérgio Mallandro? Por outro lado, estou seriamente perdido. Se alguém tiver uma dica pra me dar, manda ver. Tenho pressa em honrar o mistério de estar aqui, mesmo sem entender quase nada do que esteja acontecendo no mundo e às vezes sem ter certeza absoluta de que ele exista.

*Henrique Goldman, 40, é um cineasta cheio de fé, mas ainda não sabe bem em quem acreditar. Seu e-mail é: henrigold@yahoo.com

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