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Problema

Em Nova York há trens de metrô que, durante a madrugada, recolhem o lixo deixado nas estações e nos trilhos. Gay Talese nos conta, em seu livro Fama & Anonimato, que, ao entrevistar seus condutores, surpreendeu-se com as respostas. Embora fossem habilitados, afirmavam preferir conduzir lixo a conduzir pessoas. Por quê? Quis saber o repórter. Responderam que lixo é objeto imóvel. Apesar de ter cheiro horrível, não reclama, não exige, não pede, não manda, não tem querer e é facilmente manipulado. Em suma: não dá trabalho, não causa preocupações nem problemas.

Isso é tudo o que ninguém quer: trabalho. Preocupação a mais, além daquelas que já assoberbam a mente de cada um de nós. É a velha história da gota d’água; algo a mais do que já nos intranqüiliza pode transbordar o copo. Vivemos como se estivéssemos no limite de nossa capacidade de administrar nossa vida. É mais um aparelho que quebra (em casa quebraram cinco este mês), é mais imposto cobrado e jamais prestação de contas do uso. Aquele livro cuja edição foi adiada por um mês, mais um filho que entra na escola, mais um parente desempregado, mais um filho-da-puta de um chefe com mau caráter; mais um monte de preocupações e pressões que não cessam. Acho que a grande diferença entre a vida dentro do cárcere e aqui fora (percebo agora, três anos após minha saída) é esse nível de preocupação, tensão e limites sendo testados a todo instante, responsabilidades sempre crescentes e o stress contínuo.

Na prisão havia situações-limite, perigo de vida, preocupações, como aqui fora, mas sempre situações, momentos, dificuldades. Não existiam constantes (o aluguel no fim do mês, o remédio caro e necessário para um filho, por exemplo). A maior de todas as preocupações consistia em estarmos distantes daqueles a quem amávamos.
As pessoas perdiam seus empregos (o que é quase um suicídio, aqui fora), ficavam doentes, morriam, passavam por dificuldades e nós nos preocupávamos. Como pouco ou quase nada podíamos fazer, aprendíamos a nos desligar para nos concentrar na barra que sempre foi suportar as dores próprias da prisão. Uma economia existencial, a única forma de sobrevivência com dignidade. Nunca estive preparado para o nível de preocupações, responsabilidades e obrigações a que fui incorporado, meio que sem perceber. A cada movimento meu, preciso pensar (e muito) para não esbarrar em suscetibilidades, não causar prejuízos, não magoar pessoas e não deixar ninguém em falta. Em meus curtos passos, fiz longas caminhadas. Fiel a mim mesmo e abrindo caminho por entre cipoal de decisões, opções e escolhas que devo fazer ou tomar, tento a coerência e o bom senso. A cada instante percebo que é pouco. Porque sempre me escapa, como papel amassado a volitar com o vento.

Tudo às vezes parece soar oco, rude e inquietante. São muitas pessoas com as quais me importo agora. E tudo se desdobra em histórias robustecidas que se entrechocam, mas que fazem de mim o que sou. Gosto disso. Tudo mora em mim, virei uma casa, talvez um apertado apartamento. A gente acaba descobrindo que, apesar de toda tentativa de humanizar e idealizar, quem controla o capital, manda. No mais, são os ganhos quase sempre insuficientes por conta das necessidades crescentes.

Na última década de minha prolongada passagem pelos cárceres paulistas, tudo mudou completamente para mim. Casei e me envolvi, consciente, na maior e mais louca das aventuras humanas: ser pai. Há quem censure o fato de eu estar preso e tomar uma decisão dessas. Sem dúvida, é temerário. Mas era mais uma forma de salvação e amor. Daí para frente, o nível de minhas preocupações extrapolou todas as mais exageradas previsões. Sustentei esposa e meus dois filhos o tempo todo, mesmo da prisão. Meu coração, embora aflito, se fez forte e meu corpo respondeu à altura.

Não fora isso, as minhas preocupações e responsabilidades como pessoa aprisionada seriam bastante limitadas, para dizer pouco. A maior preocupação do preso é a de se manter vivo, pois as facas são longas e as doenças, uma constante. O café com pão; o almoço e o jantar (ruim ou péssimo) chegam à porta da cela todo santo dia, invariavelmente. Roupa é o uniforme que a casa fornece. Não se paga imposto, condução, não há receio de ser roubado, preso e um monte de impossibilidades relativas à condição prisional.
O problema é que prefiro preocupação e responsabilidade, tensão e angústia por conta dos múltiplos problemas de um brasileiro. Não digo cidadão porque há países em que as preocupações aqui existentes por lá já foram superadas há muito. Quero esse trabalho todo, essa dor de cabeça constante, essa testa franzida, olhos avermelhados e rosto crispado. Essa mania insólita, meio perdida e profundamente comovente de viver. Enfim, essa vida problemática e deliciosa de cada pessoa que goza de sua liberdade, mesmo que relativizada pelas dificuldades todas.
Talvez seja esse o preço da liberdade e eu estou disposto a pagar, ainda que fique mais caro do que já está. Não há obstáculo que me intimide, quero continuar a ser um homem livre a qualquer preço, mesmo que doa ou que, por isso, morra.

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