Estou apaixonado. Eu explico. Fui contratado pela Zencrane Filmes, produtora de Curitiba, para colaborar em um longa-metragem chamado Estômago. O filme não versa sobre prisão. A temática é comida. Mas, como nenhum dos produtores esteve preso e parte do enredo se desenvolve dentro da cadeia, nada mais lógico que procurar consultoria.
Sem querer, tornei-me especialista quando o assunto é prisão e presos. O filme, em certo ponto, envereda pela fantasia. Mas o casal Marcos Jorge (diretor) e Claudia Natividade (produtora) é de artistas inteligentes, que estão, propositadamente, inventando isso que, na minha concepção, é fazer arte: intervir no real com criatividade. A inteligência está em – apesar de – não perder contato com a realidade.
Lusa Silvestre, ao lado do diretor e da produtora, assina o roteiro. Trabalhamos juntos nesse roteiro, eu e o Lusa, aqui em São Paulo, e aprendemos bastante um com o outro. Cheguei, já estavam me aguardando. Do hotel, fomos direto para a Prisão Provisória de Curitiba. Ao percorrer as celas desabitadas do presídio, as pernas tremeram. Nunca estive ali – mas prisão é a mesma coisa em qualquer lugar. O sofrimento do homem encarcerado é igual em qualquer canto do mundo.
A velha prisão parecia uma bruxa a sorrir sem dentes. Foram chegando artistas, diretor, assistentes e o pessoal da produção. Apresentado, gostei daquele povo risonho e bonito. Alguns me conheciam pela Trip e pelos meus livros. Depois da festa para confraternizar e motivar a equipe, dormi preocupado: pelas conversas, senti a responsabilidade que tinha nas mãos. Prisão era novidade por ali. Dia seguinte, percebi que nenhum dos atores tinha vivência do que iriam representar. O desafio me encheu de motivação. Comecei a trabalhar febrilmente. Havia posições a serem marcadas – mas principalmente personagens a serem montados; e minha presença se fazia necessária. Como é bom ser necessário!
Aula Particular
Passamos três dias de trabalho concentrado. Saíamos às nove da manhã e somente às nove da noite estávamos de volta. Era absorvente e apaixonante, mas bastante cansativo. Construímos todas as cenas, ensaiamos todos os personagens e suas falas. Para exemplificar, em uma das celas, achamos um jogo de baralho improvisado a partir de carteiras de maços de cigarros. Decidimos aproveitar o material original e construir uma roda de jogo no xadrez. Os atores se empolgaram tanto que, de repente, já não estavam encenando mais; brincavam esquecidos de tudo. É uma cena genial; construímos juntos, para grandes atores interpretarem. Foi então que entendi que arte é quando o que estamos fazendo deixa de ser consciente e vira prazer e alegria.
Conviver com aquela gente alegre, sensível e talentosa foi maravilhoso. Estávamos juntos quando o ator João Miguel recebeu a notícia que o filme Cinema, Aspirinas e Urubus, em que é o astro, havia sido indicado para disputar o Oscar de filme estrangeiro. A felicidade foi geral! Nos abraçamos; a integração já era tamanha que a vitória foi de todos. João merece, é um ator maior. Estava conversando descontraído com a gente para, de repente, chamado a ensaiar, instantaneamente se transformar no “Nonato”, seu personagem no filme. Parecia mágico, meio louco, não sei.
Trabalhei com tanto tesão que acabei sendo premiado com uma ponta no filme. Todos queriam que eu participasse das filmagens. A solução apareceu quando surgiu o barbeiro da prisão. Creio que fiz grandes amizades. Somente aqui em São Paulo fui me perceber fulminado por essa paixão repentina. O meu retorno não estava acertado. Nosso contrato acabou, e os produtores só queriam me trazer de volta se pudessem pagar. Respeitam meu trabalho. O susto fez meus pés suarem e o coração disparar. Precisava estar lá! Eles estavam procurando meios. Eu estava disposto a qualquer acordo… atitudes de homem apaixonado. Felizmente, me comunicaram que, nos próximos dias, viajo para Curitiba. Estou feliz da vida, ansioso por viver mais uma grandiosa emoção.
*Luiz Alberto Mendes, 54, ficou preso 30 anos – mas sempre manteve o espírito livre e criativo. Seu e-mail é: lmendes@trip.com.br
