Princesa, o filme

Goldman: "fui à falência para filmar a história de uma travesti brasileira"

por Henrique Goldman em

Arruinei um casamento e fui à falência para conseguir filmar a história de uma travesti brasileira que conheci em Roma. Quando foi lançado, não foi o sucesso de bilheteria esperado, mas hoje se transformou em um viral, visto por mais de 3,5 milhões de pessoas

Em 2001 dirigi um filme chamado Princesa, inspirado na história real de Fernanda, uma travesti brasileira que conheci em Roma, autora de um livro muito comovente com o mesmo nome, que conta sua vida. A exemplo de milhares de outras travestis brasileiras que na época entrevistei na Itália pesquisando para o filme, Fernanda foi para Roma se prostituir (me pergunto o que está acontecendo hoje com esta enorme diáspora sexual brasileira na Europa da crise econômica). Pagando mil boquetes, Fernanda queria juntar grana e fazer uma operação de mudança de sexo. Seu sonho era encontrar um maridão careta e ser a dona de casa mais normal do mundo. O filme retrata o confronto de Fernanda com um projeto que se revela impossível. A Fernanda real se suicidou em Verona dois meses antes de começarmos a filmar. A Fernanda do filme usa a trágica viagem para, apesar das frustrações, reaprender a amar a vida.

Trabalhei como um escravo para conseguir fazer Princesa. Por causa dele arruinei um casamento e fui à falência. Por três anos vivi biscateando e dormindo de favor em casa de amigos entre Londres e Milão. E quando, finalmente, consegui levantar a grana para a produção, tive que abrir mão do meu cachê de diretor para completar o orçamento. Foi um período muito doído, mas não posso me lamentar, pois as filmagens de Princesa estão entre os dias mais felizes da minha vida, cercado nas madrugadas congeladas do cruel inverno milanês por um bando de travestis engraçadíssimas e atores maravilhosos, todos dispostos a tudo.

O filme não foi o esperado sucesso de bilheteria, mas se deu muito bem: teve sua première no Festival de Sundance, ganhou o prêmio de melhor filme estrangeiro no OutFest em Los Angeles e foi lançado em 12 países – em alguns, como filme erótico, e em outros, como filme gay, muito embora a intenção fosse contar uma simples história de busca de identidade, universal e comovente.

Sucesso de público

Os anos passaram e o filme virou só uma doce e melancólica memória, na qual se misturavam para mim enormes alegrias e dores. Mas, do nada, recebi o e-mail de uma colega de primário me parabenizando pelo filme, que ela tinha acabado de assistir no YouTube. Fui averiguar e me dei conta de que alguém na Itália postou Princesa e agora o filme é um viral. Desde que foi postado, há três meses, já foi visto por mais de 3,5 milhões de pessoas.

Princesa continua a me trazer sentimentos conflitantes. A alegria de saber que toda esta gente, espontaneamente, nos quatro cantos do mundo, está assistindo ao filme tem como contrapeso um sentimento de injustiça por não ter sido – e nem poder agora ser – remunerado por anos de trabalho.

Talvez mandar aqui abaixo o link para o filme seja um grande engano, um desfavor para quem luta pelos direitos autorais na internet – e interesses que deveriam também ser meus. Mas, acima de tudo, contei a história para que ela fosse ouvida. Espero que gostem.

Eis aqui o link para o filme: www.tinyurl.com/co5z99a

*HENRIQUE GOLDMAN, 51, cineasta paulistano radicado em Londres, é diretor do filme Jean Charles. Seu e-mail é hgoldman@trip.com.br

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