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PRESO NÃO VOTA. MAS OPINA

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Aproximam-se as eleições parlamentares e majoritárias. Vamos (pura força de expressão, já que nós, presos, não votamos) escolher presidente, governadores, deputados e senadores. Estive conversando, curioso que sou, com companheiros aqui dentro, sobre o que eles acham disso tudo.
O que disseram me fez recordar uma questão formulada em fábula filosófica que li recentemente, no livro A Carta Esférica, do espanhol Arturo Perez-Reverte. Em uma ilha existem escudeiros e cavaleiros. Os escudeiros sempre mentem e traem; cavaleiros nunca mentem nem traem. Um dos habitantes da ilha afirma: vou mentir e trair sempre. A pergunta é sobre a natureza desse personagem: escudeiro e cavaleiro?

Bom ladrão?
Já sabia, mais ou menos, sobre a opinião geral, mas me surpreendi diante da heterogeneidade das demais opiniões. A maior parcela considera as eleições uma palhaçada. Justificam-se: os políticos prometem mundos e fundos e quando, ao cabo de tanta promessa, chegam ao poder, esquecem tudo, vão tratar de seus interesses e só na próxima eleição aparecem novamente, na maior cara-de-pau. Nada diferente da opinião da população do país, diga-se de passagem.
Há, é claro, os que têm ideologias. Pensam em suas famílias, que elas precisam de bons governantes e legisladores eficientes. Discutem fervorosamente sobre candidatos. Às vezes os ânimos ficam exaltados a ponto de preocupar os responsáveis pela disciplina. Promovem campanhas, aconselham famílias, fazem proselitismo com parceiros de xadrez e até no pátio. Observando comportamentos e atitudes, esses me parecem os mais conseqüentes.
Essa pesquisa me fez lembrar o início de Demian, do alemão Hermann Hesse. Questiona-se ali quem, entre os dois pendurados na cruz, ao lado do Cristo, seria o bom ladrão. Alguns consideram políticos que ‘roubam mas fazem’ os melhores, já que pelo menos fazem. Teriam esses o seu ‘bom ladrão’? Há ainda os que falam de políticos com promessas de ajuda com advogados, influências políticas, cestas básicas e demais necessidades. Pedem, em troca, listas, com quantidade estipuladas de promessas de votos; especificando nomes e números de títulos de eleitor respectivos. Claro, está implícito: o voto é secreto. Então, dizem: na hora de votar, nesses não, de preferência. Sacanagem com sacanagem se paga.

Moral da história
Sobre a questão proposta pela fábula do livro citado. Um dos personagens encontra a única resposta viável para aquela e outras ilhas: não há cavaleiros, apenas escudeiros.

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