Caro Paulo,
Não sei definir espiritualidade, mas o tempo me ensinou a reconhecer o comportamento de uma pessoa não espiritualizada.
A primeira característica é que essa pessoa reclama muito. A vida nunca está como ela gostaria que fosse. Não compreende por que as coisas acontecem do jeito que acontecem, mesmo quando as coisas dão certo existe um lamento. Não usufrui do fluxo natural da vida alimentando-se, da mesma maneira, dos seus fracassos e sucessos. Parece que vive com o freio de mão puxado.
Outra característica é o pessimismo. Não acredita que o futuro possa conspirar a favor de seus projetos. Conseqüência dessa desconfiança, essa pessoa procura controlar tudo e todos para garantir que seus planos vão dar certo. Gasta uma energia extraordinária em segurança, protegendo-se contra “eles” que sempre significam uma ameaça. No fim das contas, falta-lhe energia para criar algo positivo, imaginar algo melhor e de valor para todos.
Essa pessoa acredita que o importante é o destino e não a viagem. Não entende que “The journey is the destination”, como diz o título da biografia do Dan Eldon, fotógrafo que morreu assassinado aos 27 anos, depois de gastar muito bem cada segundo de seu curto tempo de vida. A sensação que dá é que está sempre adiando a felicidade, para um futuro incerto ou para outra vida, fora deste mundo.
Na verdade, a pessoa não espiritualizada é chata porque não consegue ver graça naquilo que vem de graça na vida. Está sempre fazendo esforço para se divertir e se as condições ideais da diversão não acontecem fica infeliz e aborrecida. Não vê diversão em não fazer nada. Não consegue ficar quieto consigo mesmo, passeando por suas emoções, conhecendo novos lugares de um mundo exclusivo a que só ele tem acesso.
Pelas mesmas razões, não vê beleza na natureza. A beleza de uma aventura regida por leis que não foram feitas pelos homens e que por isso nos ensinam a viver o melhor da nossa condição de humanos e a conviver melhor com a própria natureza. Essa pessoa corta árvores indiscriminadamente, impermeabiliza o solo, canaliza rios, desperdiça água e polui o ar.
No fundo, a pessoa não espiritualizada é ignorante porque não tem perguntas que a levem a descobrir o que ela está fazendo aqui, o sentido do sofrimento, da frustração, da dor, da doença e da morte. Sem perguntas, fica ingênua. Ou arrogante – porque acha que sabe tudo. De qualquer forma, vive com medo porque a vida sempre a surpreende com evidências mostrando que ela devia ter mais perguntas. Medo do outro, medo da natureza, medo do futuro são as razões de suas decisões. Enfim, não sabe por que o sucesso acontece para algumas pessoas e não acontece para outras.
Se auto-ajudando
Outro dia, uma amiga e cliente, Andréa Cola, uma mulher de sucesso, me deu de presente um livrinho chamado A Boa Sorte. Está nas prateleiras de auto-ajuda, tem uma capa de auto-ajuda, mas é muito bom. Ela mesma quando me presenteou pediu desculpas pela cara do livrinho. Trata-se de um profundo estudo acadêmico sobre pessoas de sucesso que, para ser difundido, os autores transformaram numa pequena e sensacional fábula de dois cavaleiros em busca da sorte. Acho que já distribuí uns 50 exemplares para os meus amigos.
Em síntese, o livrinho repete para você “fazer a sua parte que o resto lhe será dado por acréscimo”. Na Thymus, que trabalha muito com perguntas e processos criativos em busca de respostas, nós temos uma frase que nos ajuda a atravessar os projetos com um mínimo de tranqüilidade: “Trust the process”. Isto é, depois de fazer tudo o que achamos que é preciso ser feito, dando o máximo possível nas condições dadas, confie no processo. Acredite que as leis conspiram a favor de quem está do seu lado. E, se não der certo, entenda o mau resultado como meu outro amigo Victor Pinedo me alertou um dia: é porque o processo ainda não acabou.
Para encerrar um assunto que não tem fim, recomendo aos céticos que têm perguntas a leitura de Espiritualidade para Céticos, de Robert C. Solomon. E um poderoso livrinho de Deepak Chopra, As Sete Leis Espirituais do Sucesso.
No meu dia-a-dia não faço distinção entre pessoas espiritualizadas e não espiritualizadas, porque não acredito que o estado de espiritualidade possa ser conquistado definitivamente. Para mim, essa é uma busca constante e coletiva, onde cada um tem que fazer a sua parte.
É isso. Como se diz lá em Minas, fica com Deus. Ou melhor, Namastê – o deus que habita em mim cumprimenta o deus que habita em você.
Ricardo.
*Ricardo Guimarães, 56, é presidente da Thymus. Seu e-mail é: rguimaraes@trip.com.br
