Segundo conta, ele, sua namorada e outro casal de amigos passaram boa parte do ano juntando as economias para passar o último feriado na festejada St. Barthelemy, uma das ilhas caribenhas pertencentes à França.
Entre dezenas de preparativos para a viagem, ocorreu a um dos viajantes consultar a empresa de turismo receptivo encarregada de recebê-los sobre a necessidade de visto. Mesmo considerando a hipótese remota, uma vez que os brasileiros que viajam à França continental são dispensados dessa exigência, a consulta foi feita. Segundo informou a companhia local, não haveria problema, já que o visto não seria exigido.
Com essa informação na mala, o quarteto seguiu belo e formoso para a tão sonhada St. Barth.
Sobrevoando as águas que parecem retocadas em photo shop, a ansiedade aumentava. Pouso tranqüilo, malas desembaraçadas, já avistando o rapaz portando uma plaquinha com seus sobrenomes do outro lado do vidro, os dois casais não viam a hora de chegar ao hotel, desfazer as malas e vestir roupas leves, dando início ao processo de relaxamento absoluto. Afinal, é isso que se compra quando se resolve encarar a verba que uma viagem dessas representa.
LAISSEZ PASSER
Surpresa! Ao exibirem orgulhosos seus passaportes verdes ao policial de bermuda azul escuro e camisa azul claro, trinta e oito na cintura e bigode ruivo de gaulês, nossos amigos descobriram que a informação da empresa local estava errada. Cidadãos brasileiros precisam, sim, de vistos para entrar nas Antilhas francesas. Mesmo com a ajuda de um quinto cidadão brasileiro que vinha no mesmo vôo, e que dominava o idioma, além de ter passaporte da comunidade européia, o que claramente lhe conferia tratamento de melhor qualidade, não houve choro, argumentação, explicação ou demonstração de boas intenções que demovessem as autoridades de imigração francesas da idéia de ‘expulsar’ os dois casais de seu sagrado território.
Assim foi feito. Nossos conterrâneos foram ‘convidados a se retirar do país’, sendo que seus passaportes foram retidos sem que houvesse uma boa razão até quase o pôr-do-sol, quando deveria decolar o último avião, já que o aeroporto local não opera à noite. Ou seja, no mínimo por falta de boa vontade dos encarregados, quatro cidadãos brasileiros correram o risco de ficar retidos numa saleta por uma noite inteira, sem contar a enorme frustração e todo o prejuízo material e moral.
Pelas leis e convenções internacionais vigentes, os países podem negar a estrangeiros o direito à entrada em seu território.
Será, porém, que à luz dos desacertos que estamos vendo acontecer no planeta, os melhores métodos para conter terrorismo, controlar o nível de desemprego e equilibrar mercados e qualidade de vida são os de exclusão?
Será que a idéia de classificar os povos do planeta em cidadãos de primeira, segunda e terceira classes, não soa um pouco inócua a ninguém?
Por que um brasileiro pode entrar sem visto em Paris e não em St. Barth?
Que tipo de risco um turista brasileiro pode representar a uma ilha do Caribe que um italiano não possa?
Será que o assunto não justificaria mais um dos brilhantes discursos em francês fluente de FHC?
O que tem a dizer o Itamarati?
Os cidadãos franceses que lotam alegremente as praias do nordeste brasileiro correm o risco de ser deportados se não portarem os carimbos adequados?
Bem, para essa última questão pelo menos, temos a resposta: Não, nenhum cidadão francês precisa de visto para entrar em território nacional. Nem mesmo em Fernando de Noronha.
C´est la vie??